Opinião
Publicada em 05/12/2017 - 23h05min

Raul Rodrigues

Ter ou ser

Durante um diálogo, enquanto as pessoas do ter confiam no que possuem, as do ser confiam no que são! De que estão vivas e de que algo de novo está na iminência de nascer, se houver coragem e ousadia, em responder. Sentem-se totalmente vivas durante a conversa, porque não estão sufocados pela fixação ansiosa naquilo que têm. A sua vivacidade é contagiosa e muitas vezes ajuda a outra pessoa a ultrapassar sua estreiteza, seu egocentrismo.
O que é verdade para o diálogo é igualmente verdade para a leitura, que é, ou deveria ser, uma conversa entre autor e leitor, esperança que ocorre nos que vão interagir com um texto filosófico. É claro que na leitura, do mesmo modo que na conversa, é importante quem estamos lendo, ou com quem estamos falando!
Com isso, não é de estranhar que somos uma sociedade de gente visivelmente infeliz: sós, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes! A grande diferença entre ser e ter é a que se estabelece entre uma sociedade centrada nas pessoas e uma sociedade centrada nas coisas.
Pela primeira vez na história, a satisfação pelo prazer não constitui apenas o privilégio de uma minoria. Tornou-se acessível a quase todos. Ser egoísta agora não está só relacionado ao comportamento, mas ao caráter. Ou seja, todos querem tudo para si, porque não! O que dá prazer possuir e não partilhar, e que devo tornar-me ávido, porque, se o meu objetivo é ter, eu sou tanto mais, quanto mais tiver.
Que devo sentir nos outros apenas adversários: meus clientes a quem devo iludir; meus concorrentes a quem devo destruir; meus colaboradores que pretendo explorar, jamais me sentirei satisfeito, porque não existe fim para os meus desejos. Devo sentir inveja daqueles que têm mais e recear aqueles que têm menos. Mas, vejam bem, tenho de reprimir todos estes sentimentos para poder revelar-me, aos outros e a mim mesmo, como o ser humano sorridente, racional, sincero e afável que toda a gente pretende ser. E depois, não me venham com a desculpa de que só há frustrações!
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