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Publicada em 02/01/2018 - 21h24min

Raul Rodrigues

Pela memória

A fiel escudeira memória, a todo momento à minha disposição! Dela me sirvo à exaustão. Pense só no que ela é capaz de me proporcionar. Pode-se lembrar, por vontade própria, do primeiro dia de aula no ginásio, o primeiro beijo de amor, da chegada de uma filha. Ao fazer isso, não se recorda somente do evento em si, mas experimenta-se também a atmosfera em que tudo ocorreu: cenários, sons, odores, o ambiente social, as conversas e o clima emocional criado.
Recordar o passado é privilégio de gozar grata viagem mental no tempo. Ela nos liberta dos limites temporais e espaciais e permite nos movermos livremente por dimensões nada ortodoxas. Sinto-me em 3 de agosto de 1959, pela Afonso Pena, via Jardim da ... Luz, me dirijo ao Liceu de Artes e Ofícios, instalado na Pinacoteca, bem de fronte à mais do que evocativa Estação da ... Luz!. Meu amigo Atsushi Gomi, dos States onde realizava profícua viagens de estudos, acabara de me recomendar a algo que desejava de muito tempo: a possibilidade de trabalhar e compensar as agruras financeiras da hora!
É inverno, morno, talvez quem sabe para aplacar a algidez de meu peito perante a iniciativa que tinha tudo para modificar os rumos que minha vida iria tomar. É difícil descobrir as raízes juvenis de interesses e ações complexas da vida adulta de alguém. Ainda assim, não posso deixar de vincular meu interesse posterior pela educação, pelo modo como as pessoas se educam. O caráter imprevisível de suas motivações e a persistência de suas lembranças, aos tempos em que fui professor no Liceu.
Ao completar 54 anos de magistério: "Não esquecer, jamais!" tornou-se lema a fortalecer toda decisão que tomei depois em minha vida. Uma exortação para que as gerações futuras se mantenham vigilantes contra a pseudoeducação, o preconceito e o ódio, atitudes mentais capazes de desencadear a maior das atrocidades.
Minha atividade tenta criar as situações mais favoráveis que, por meio do ato de se deixar educar, revelar-se a si próprio, como eu me revelei, vida afora.
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