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Publicada em 06/03/2018 - 22h12min

Raul Rodrigues

As arquiteturas do desejo

O cérebro não é um órgão projetado para conhecer, tampouco se alçar ao céu das ideias platônicas: pela via do desejo está a serviço do estômago, do sexo e das demais necessidades que bafejam o homem. Sua finalidade é dirigir a conduta. Perceber, aprender, conhecer, e muitas outras coisas mais, como desejar e emocionar-se. Por outro lado, o pensamento utópico consiste em inventar um modelo ideal que, por comparação com um presente, por si só miserável, estimule esse desejo, que, como desdobramento, colocará em marcha um inacabado processo de ajuste homeostático para satisfazê-lo.
Gurus de plantão oficializaram o termo transumer: aqueles que mesmo sendo consumidores não buscam a posse, mas a experiência. Percebam a sutileza: defendem uma maneira de viver transitória e sem restrições. Tudo se aluga, é a bandeira desfraldada!
O filósofo francês Blondel endossa: O conhecimento não encerra um fim em si! Tampouco uma meta final, mas um meio, uma proposta pontual para viabilizar e ao mesmo tempo para obter mais do ser. Isto implica que todo navegante deve saber avançar em zigue-zague quando tem o vento contra. Modo segundo o qual avançam indivíduos e sociedades em geral. A qualidade de qualquer iniciativa educa a alma e o corpo, e nos ensina palavras que dão nome a nossos espantos, medos e alegrias, obrigando-nos a debruçar sobre o humano em nós implícito.
Santo Agostínho afirmou que no homem brotavam três poderosos desejos: sexual, de poder e de dinheiro. Está claro que o desejo de dinheiro é a textura que solda os demais. Nada deseja a materialidade do dinheiro. Ansiamos por ele por seu valor simbólico. No entanto, pela via do comportamento pode-se afirmar: Nada de valioso foi feito sem paixão! A tarefa hercúlea da inteligência, o que a converte em inteligência humana, é criar possibilidades desejáveis. Como se este não fosse seu risco e sua ventura! A realidade não nos basta.
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