Opinião
Publicada em 29/12/2018 - 20h54min

Elizeu Silva

Jornalismo agonizante

Se notícia é aquilo que alguém não quer que seja publicado, na célebre definição do magnata norteamericano William Randolph Hearst, a entrevista de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL), exibida pelo SBT na última semana, não tem qualquer relação com jornalismo. Trata-se, na melhor das hipóteses, de uma canhestra peça de relações públicas.
Martirizei-me assistindo mais de uma vez os 22 minutos da entrevista. Na matéria, destacam-se a versão confusa de Queiroz, as sentenças incompletas, as divagações típicas de quem foge do tema, as alegações de esquecimento inverossímeis, o olhar estratégico para a câmera ao fazer menção à família e aos supostos problemas de saúde. Seguindo o manual clássico para redução de danos, a entrevistadora procurou humanizar o personagem - que permaneceu escondido durante pelo menos duas semanas, desde que surgiram denúncias de movimentação financeira suspeita que podem respingar no ex-patrão Flávio Bolsonaro e no presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Fica claro que a repórter seguiu um script de gestão de imagem e gerenciamento de crise.
Não chega a surpreender que mais essa demonstração de antijornalismo venha à luz na emissora do "Topa Tudo por Dinheiro", a mesma que em 2003 enganou sua audiência com uma falsa entrevista com um membro do PCC.
Também não é surpreendente que apenas 5% da população afirmem confiar na Imprensa, segundo pesquisa realizada pela CNT, em maio deste ano. Com uma mídia dessas, soa previsível a pesquisa do instituto britânico Ipsos Mori, realizada em 2018 e envolvendo 37 países, segundo a qual o Brasil ocupa a quinta posição em ignorância da realidade.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, ao qual a repórter Débora Bergamasco, que entrevistou o ex-assessor, jurou fidelidade, determina que a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público.
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