Opinião
Publicada em 09/01/2019 - 23h13min

Paulo Passos

Vesti azul

De maneira inusitada e desnecessária, o presidente da República recém-empossado, criou o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Pior que isso: colocou à frente da pasta, uma senhora que tem se notabilizado pela fala impensada, a folclóricas e risíveis frases.
Nesse contexto, ela que se define, em Estado laico, ferrenha advogada dos preceitos evangélicos, a ponto de proclamar que o Brasil "será salvo pela religião, e não pela política", também confidenciou estória pessoal, quando, em momento de desespero, teria visto Cristo subindo em goiabeira.
Desprezíveis os argumentos, ao mesmo tempo em que chegaram, foram esquecidos. Desta feita, no entanto, a destrambelhada foi além. Em momento festivo, aos cantos e dancinhas, anunciou, em alto e bom som, que os meninos, a partir de agora, vestirão azul e as meninas, rosa.
Óbvio que quis, com a infeliz comparação de cores na frase repleta de intolerância, marcar os campos definidos aos sexos, opondo-se sobremaneira - e isso ela mesma tem confessado -, à igualdade, aplaudida como franco progresso em favor dos direitos de minorias. Não que ela seja escoteira em afrontar o sedimentado internacionalmente. Relembre-se que o ministro das Relações Exteriores opõe-se virulentamente à globalização, pregando que o Brasil, no concerto internacional, deva ter conduta própria, dissociada dos parâmetros seguidos pelas demais nações.
Choca, no entanto, concluir-se que, a encarregada da defesa e proteção dos direitos humanos, dando azo aos dogmas religiosos que a governa, às conquistas sociais dê de ombros, e relegue os homossexuais - ao menos é o que fica implícito em sua manifestação - a plano inferior, a casta que merece ser discriminada. Com certeza absoluta - e prova disso se encontra em outros de seus "exuberantes pronunciamentos" - guardará munição, a partir de agora, para se opor ao aborto, eis que, de modo geral, as igrejas o rejeitam.
Até outro dia, pelo que me ensinaram, havia separação obrigatória entre igreja-Estado. Será que ainda persiste o lecionado?
Compartilhe

Video

Mais vistos