Editorial
Publicada em 13/08/2019 - 00h18min

Inacessibilidade

Tal qual a peculiaridade de se utilizar o substantivo que significa a falta de acesso a alguma coisa, seja material ou impalpável, o conceito de inacessibilidade precisa ser projetado de maneira mais abrangente, para que as pessoas possam ter conhecimento daquilo que realmente é corriqueiro para um determinado grupo, digamos privilegiado, e o que se torna uma imensa barreira para outra parcela. A iniciativa da arquiteta Camila Caruso, que no sábado passado promoveu uma ação de conscientização ao levar os participantes a vivenciarem as dificuldades de locomoção das pessoas com mobilidade reduzida pelas ruas e calçadas do centro histórico de Mogi das Cruzes, é louvável.
Mesmo que não seja inédita, a proposta de experimentar sensações alheias é uma forma eficiente de sensibilizar o público para um problema contemporâneo: a inexistência de um planejamento arquitetônico voltado para as minorias. A legislação avançou bastante neste sentido, mas ainda provoca restrições por conta do alto custo de efetivação e da incompatibilidade estética nas construções. Mais complexo, porém, é a necessidade de se adaptar àquilo que foi edificado há anos para atender a demanda de locomoção.
Especificamente no caso de Mogi, cuja fundação e habitação surgiram ao longo de 460 anos, esta lacuna é mais evidente. Além do sistema viário, muitos prédios foram construídos há um bom tempo, sem levar em consideração as minorias. Adaptá-los, hoje, deixarão os espaços mais com cara de "puxadinho", cujos arranjos podem atender a legislação, mas não têm a devida eficácia para as pessoas. Outros municípios do Alto Tietê, também com construções e ruas do século passado, sofrem os mesmos percalços.
É preciso que as autoridades se preocupem mais com o planejamento dos espaços e não apenas no cumprimento da lei. A missão dos governos deve ter fundamentação em obras pensadas a longo prazo e não em conceitos políticos imediatistas. Se estamos pensando em construir um futuro melhor, ele precisa ter uma concepção de atender aos diversificados grupos. Caso contrário, o chamado jeitinho brasileiro vai ser perpetuado.
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