Polícia
Publicada em 09/11/2019 - 21h05min

Há 40 anos distribuindo amor nos corredores da Santa Casa

Aos 72 anos, a mais antiga voluntária da Santa Casa de Mogi das Cruzes revela que se sente como se fosse uma jovem de 18. "É minha alegria de viver", confessou

Todos os dias pela manhã, assim que desperta, a bibliotecária aposentada e presidente da Associação de Voluntários da Santa Casa de Mogi das Cruzes (Avosc), Miriam Nogueira do Valle, de 72 anos, se pergunta: "O que eu tenho de bom para oferecer hoje?" A resposta chega rápido, assim que a doce senhora cruza a porta de entrada do hospital e se veste com o avental cor-de-rosa - uniforme dos voluntários. Nesta hora, Miriam abre o seu enorme coração e abraça quem for necessário. É deste jeito há 40 anos, tempo em que Miriam se dedica à rotina do hospital mais antigo do Alto Tietê. "Eu sinto uma vontade de viver como se eu ainda fosse uma jovem de 18 anos. A Santa Casa é a minha alegria de viver", disse, sorrindo.
Miriam recebeu o Mogi News na semana passada, na sala da Avosc, situada dentro do hospital. Um lugar aconchegante que faz lembrar a "casa da vovó". "Aceita um café?", ofereceu à equipe logo na entrada. A sala das voluntárias, que tem até filtro de barro - peça rara nos lares da atualidade - se tornou uma espécie de "ponto de parada" dos mais de 600 funcionários da Santa Casa. "Vira e mexe algum funcionário bate na porta para conversar. Sou uma espécie de conselheira. Me pedem um aconselhamento e eu adoro poder ouvi-los", contou.
São quatro décadas de voluntariado no hospital. Uma história que começou em janeiro de 1971, quando Miriam foi convidada por Ilda Brito, esposa do provedor da época, Rubens Brito, para ajudar a Santa Casa que, naquele período, passava por uma enorme crise. "Não tinha funcionário, não tinha nada. Ela, como esposa do provedor, chamou 60 mulheres - conhecidas dela - para atuar como voluntárias. Talvez esta iniciativa tenha sido a pioneira em todas as Santas Casas porque viram que aqui deu muito certo. Em um ano nós conseguimos levantar a Santa Casa. Fazíamos de tudo aqui: trabalhamos na portaria, na recepção, na cozinha... Começamos a usar os nossos próprios carros para buscar alimentos nos sítios. Nos engajamos demais, nos dedicamos muito. Eu vim para ficar este tempo apenas, mas acabei ficando até hoje", lembrou.
O hospital, na ocasião, havia conseguido sair do vermelho por meio do esforço coletivo e, aos poucos, ia se fortalecendo. No entanto, um ano e meio depois da entrada das voluntárias, a Santa Casa passou por uma grande provação: prestar atendimento de qualidade a boa parte dos feridos na tragédia com o trem dos estudantes, ocorrida em junho de 1972. "Nós atendemos muitas pessoas aqui na Santa Casa naquela época. E nós só pudemos oferecer este atendimento porque havíamos conseguido levantar o hospital. Parece que foi Deus que fez esta preparação. Muitos pacientes ficaram internados aqui por muito tempo depois", relembrou.
Foi a partir deste trágico episódio de repercussão nacional, que a Santa Casa, segundo Miriam, começou a ser mais valorizada no meio político, principalmente pelo governo do Estado. "Eles perceberam a importância que tínhamos. Foi aí que eles começaram a nos ajudar bem mais, por exemplo, mandando ambulâncias", detalhou.
Atualmente, o hospital conta com 40 voluntários. Cada um possui o seu setor específico de atuação. Trabalham em média quatro horas por dia. Se tornaram essenciais na rotina estrutural do hospital. Aliás, não só isso: os voluntários são peças fundamentais no relacionamento com os pacientes, principalmente. As "meninas de rosa" - como carinhosamente são chamadas na Santa Casa - ainda orientam gestantes sobre cuidados com o bebê, amamentação, confeccionam kits de enxovais que são doados aos recém-nascidos, também divulgam campanhas de saúde do hospital e ajudam a organizar o fluxo de pacientes nos ambulatórios e pronto-socorro. "Às vezes, infelizmente, um paciente morre e o médico nos chama para ajudá-lo a conversar com a família, para poder confortá-la. Para ser voluntário tem de ter dom. Não adianta somente colocar um aventalzinho cor-de-rosa e sair andando pelo hospital. Não. Isso envolve muita coisa. Envolve paciência, mansidão... você precisa ouvir os pacientes", detalhou.
Num dado momento, a entrevista foi brevemente interrompida. Entretanto, por um motivo plausível. Uma jovem chegou à sala dos voluntárias com duas grandes sacolas cheia de roupas. "Olha só, mais uma doação. Nós estamos sempre abertos às doações. Parte deste material é usada no nosso bazar que é feito aqui dentro, para os funcionários, e o dinheiro vai tudo para a nossa caixinha. Temos de fazer dinheiro", finalizou, sorrindo.
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