Opinião
Publicada em 24/01/2020 - 00h13min

Heródoto Barbeiro

A sombra do vice

O vice presidente é visto como uma ameaça constante. A qualquer momento pode reunir forças e tentar ocupar o lugar do titular. Está escrito na Constituição que na falta do presidente ele assume até o final do mandato. No passado era um pouco diferente, na república velha só governaria até o fim se fosse empossado depois de dois anos do mandato do titular. Se a sucessão ocorresse antes teria que convocar novas eleições. Mas há exceções.
No primeiro governo republicano, Deodoro derrubado por um golpe de estado, o vice, Floriano Peixoto, ignorou a lei e governou até o final do mandato do titular. Contudo na nova república o vice não precisa de preocupar com isso. Toma posse mansa e pacífica e governa.
O antagonismo do vice com o titular, é de ordem ideológica. Um é ligado aos movimentos de esquerda, aos sindicatos, aos partidos radicais e intelectuais engajados. Defende uma forte participação do Estado na economia, com o controle dos preços de produtos básicos, como gasolina e diesel, a nacionalização via expropriação, de empresas estrangeiras em setores considerados estratégicos como comunicação, energia elétrica e petróleo.
O outro, por sua vez, é a voz do conservadorismo. Insiste na liturgia do cargo e se porta. As divergências acentuam-se com a escolha dos ministros militares e uma opção econômica digna de apoio por parte do Fundo Monetário Internacional. Há perspectiva de privatizações e abertura para investimentos estrangeiros.
A principal proposta do governo é a instalação de uma cruzada moralizadora, o saneamento moral reivindicado pelos que o elegeu. É verdade que não foi o titular que escolheu o vice, uma vez que a constituição estabelece que são dois votos separados. Assim é possível votar para presidente em Jânio Quadros e para vice em Joaõ Goulart. O quadro só pode evoluir para o pior : o presidente manda o vice para a China, tenta um golpe de estado, sem sucesso, e os militares entram em cena para impedir a posse de Goulart. Daí para frente deu no que deu : o golpe civil-militar de 64.
Compartilhe

Video

Mais vistos