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Publicada em 16/01/2020 - 01h31min

Paulo Passos

Piadas

Característica do ser humano, é, também, rir da desgraça alheia. Nesse trilho, não é novidade, já em tempos de outrora, havia humoristas que se especializavam em criar tipos cuja principal característica, era desfazer de parcela da sociedade.
Não se pode esquecer, por exemplo, de Zé Vasconcelos a imitar gagos e de Costinha e suas sátiras homossexuais.
Passaram-se os anos, e quando se brada pela igualdade, quando o homem se jacta de ser "ainda mais civilizado", simples vista d'olhos permite observar que continuamos os mesmos preconceituosos de antigamente.
No domingo, ao ligar o televisor, assisti na Rede Globo - e o fiz distraidamente, eis que detesto o apresentador - deparei-me no programa do Faustão com quadro baseado em "stand-up", bem a gosto dos americanos do norte, aquele no qual o infeliz, sozinho no palco, faz o possível, tenta se superar, quase sempre sem sucesso, para parecer engraçado.
Para meu desgosto, insípido artista se exibia satirizando a pobreza, brincando com o modo de vida da massa imensa dos brasileiros que foram condenados ao fundo do valo.
Entre tiradas grosseiras e, por vezes, aviltantes, o ator mostrava seu preconceito - ao que parece contando com aceitação pública, eis que aprovado para outra fase.
Dirão os mais velhos, os que conheceram - mais ouviram que viram - os diálogos entre Brandão Filho e Paulo Gracindo envolvendo os primos rico e pobre, que isso também vem lá de trás.
Tais esquetes, no entanto, refletiam forte crítica social, mostravam o egoísmo e a preponderância da classe mais favorecida, levava à reflexão, diferentemente da cena patética à qual me refiro, onde o sentido único era escorraçar os mais carentes, para o "enaltecimento" do moço que se exibia.
Incomodado, atendendo ao velho adágio, mudei o canal, mas conservei comigo a mágoa que ouso compartilhar.
Cartão vermelho ao Faustão, cartão vermelho ao piadista, cartão vermelho a todo tipo de discriminação.
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