Editorial

Brincadeira

Tiago Pantaleon Ignacio
10/05/2016 às 06:10
Atualizada em 10/05/2016 às 06:10.
A sensação que se tem ao se deparar com a principal notícia do dia de ontem é de que muita gente está de brincadeira com a situação atual e o futuro do País. É bem provável que a decisão já tenha sido derrubada depois que esse texto editorial foi escrito, mas o fato é que grande parte da classe política não é séria ao agir em favor de partidos e de nomes em detrimento das consequências danosas para toda a população.
Em uma decisão estranhamente repentina e que levanta suspeitas sobre a honestidade e a espontaneidade de seu surgimento, indicando mais uma artificialidade bancada de forma escusa, o presidente interino da Câmara Federal, deputado Waldir Maranhão (PP-MA), determinou a anulação da tramitação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT).
Na prática era a tentativa de cancelamento das sessões que trataram do assunto entre 15 e 17 de abril, que culminaram na aprovação da admissibilidade da denúncia, e pedindo o retorno do processo do Senado para a Casa. E ainda estipulou cinco sessões para refazer a votação.
Embora muitos deputados tenham agido imediatamente com apresentação de recursos junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), houve quem na hora defendeu que a determinação de Waldir Maranhão é juridicamente inexistente, ou seja, não tem base nenhuma que a sustente e que por si só é nula, cabendo ao Senado ignorá-la e dar sequência ao processo até a votação previamente agendada para amanhã como se nada tivesse acontecido.
Foi uma jogada e tanto que pode custar muita coisa para o futuro do Brasil. Logo após o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), seu sucessor é cooptado para dar um contragolpe com a tentativa de encontrar "pelo em ovo". Que decadência do governo depender de um parlamentar inoperante, investigado na Operação Lava Jato.
É bem provável que apesar da surpresa causada ontem tudo já tenha voltado ao normal hoje, mas o episódio mostrou como muita gente está disposta a tudo, mesmo a brincar com a vida de milhões de pessoas. O País está parado há meses. Enquanto toda essa crise não se resolver logo, a estagnação permanecerá, o que poderá ser fatal. Economia continuará não girando, empresas não se sustentarão e a fila do desemprego só tenderá a aumentar.
Foi uma brincadeira de mau gosto que só mostra do que são capazes de fazer aqueles que estão no poder para lá se manterem. Nada mais importa. Só eles mesmos e seus cargos.
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