O que vai mudar?

Em meio a tantas denúncias envolvendo nomes poderosos dos mais diferentes partidos políticos, o conteúdo das delações de ex-executivos da Odebrecht, a maior empreiteira do País, faz com que o brasileiro fique com muitas dúvidas e questione sobre pontos para os quais ninguém sabe se haverá alguma resposta.

Uma delas é sobre o destino do dinheiro ilícito para o pagamento de propina. Trata-se de verba não declarada. Onde estariam os bilhões de reais utilizados para comprar apoio de deputados, senadores, ministros, governadores e tantos outros agentes do Poder Público? E mais do que isso, será possível recuperar esse montante ou parte dele?

Na prática, a Odebrecht dava dinheiro aos políticos para que esses pudessem aprovar projetos, emendas ou medidas que favorecessem a empreiteira, mais notoriamente em obras e serviços relacionados a Petrobras. Era um lobby político em jogo, uma resposta ao financiamento de campanha que ela e diversas outras empresas fazem em período eleitoral em todos os níveis. Se dão dinheiro lá atrás, vão querer algo em troca mais à frente.

Outra dúvida que surge é se esses episódios todos que vieram à tona, que evidenciam a institucionalização da corrupção no Brasil, vão ter algum desfecho positivo, ou seja, se os responsáveis serão punidos, corruptos e corruptores, e, principalmente, se algo vai mudar daqui para frente no que diz respeito à relação da classe política com o dinheiro.

A primeira delas não é possível estimar agora, até mesmo porque o processo todo deverá levar muito tempo, seja no Supremo Tribunal Federal (STF), seja nas instâncias inferiores da Justiça Federal. Exemplo disso é o caso da ação penal do mensalão, em que foram necessários anos para que as primeiras condenações saíssem.

Quanto à segunda dúvida, a história do País mostra que dificilmente mudará. O financiamento de campanha é algo necessário. Se apregoa tanto sobre ser apenas público, embora atualmente já seja em parte, pois existe um fundo que é destinado às legendas, mas o fato é que tudo depende de fiscalização. De nada adiantam regras se elas não são cumpridas e o financiamento exclusivamente público de campanha não impedirá o uso de dinheiro de caixa 2.

A mudança dessa relação é o que mais se espera. Não é possível admitir que o País seja governado sob o dinheiro e os interesses de uma empresa ou grupo. Será uma oportunidade para a política brasileira se transformar. Não espontaneamente, mas a partir da cobrança da sociedade e da atuação da Justiça.