De longa data

A revelação do conteúdo da delação de Emílio Odebrecht não foi exatamente uma surpresa, mas foi contundente em pelo menos dois aspectos. Ele afirmou com todas as letras que a nossa grande Imprensa é dotada de imenso cinismo, pois manifesta surpresa em relação ao que é exposto pela Lava Jato, quando na verdade, segundo ele, essas empresas sempre tiveram consciência da intensa promiscuidade que tem permeado a relação entre as grandes empreiteiras e diversos agentes públicos. E também afirmou que essa prática está institucionalizada há 30 anos.

No dia 22 de abril, o jornalista Josias de Souza fez um extenso artigo com o seguinte título: "Corrupção ronda a Odebrecht desde a ditadura". Sustentado por pesquisa feita com documentos que estão disponíveis nos arquivos do Senado, ele mostra que a suspeição já rondava o Grupo Odebrecht durante a ditadura militar. Em abril de 1979, Norberto Odebrecht, pai de Emílio, foi levado a depor em uma CPI do Senado que investigava o acordo nuclear Brasil/Alemanha.

Isso foi motivado por denúncias de desvio de verbas, superfaturamento e favorecimento nas obras do complexo nuclear de Angra dos Reis. Essas obras tiveram início ainda em 1972, durante o governo do general Médici. A CPI teve seu relatório final divulgado apenas em 1982, já no governo do general João Batista Figueiredo.

Em outras palavras: tudo o que está sendo revelado pela Operação Lava Jato é apenas uma parte da podridão de um sistema de corrupção que se estrutura em setores públicos e setores da iniciativa privada por várias décadas.

É ingenuidade achar que aquilo que já sabemos é suficiente para extirpar da nossa realidade essa prática tão danosa. Mas temos que aproveitar bem o que já sabemos. O País precisa urgente de uma profunda reforma política que crie um ambiente mais favorável à retomada da credibilidade das nossas instituições políticas.

Não existe solução para nossa crise política que não seja construída politicamente, sob pena de colocarmos em risco a nossa incipiente democracia.

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