Abusos

Em nossa cidade, na semana passada, encontraram um cãozinho que apresentava ferimento no órgão genital. De nada adiantaram os reclamos de seu dono, as explicações que o animal estava doente, e que dele cuidava na medida do possível.

De imediato multaram o infeliz senhor em quantia alta, levaram-no à Delegacia de Polícia, e, através da imprensa, atiraram o seu nome à lama. Exames feitos no cachorro, no entanto, atestaram fato diverso: padece de câncer venéreo; longe de ter sido seviciado, está acometido de enfermidade!

Em outro cenário, o senhor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, sem que pudesse se explicar, foi levado preso em Santa Catarina, acusado de ter produzido desfalque na Universidade Federal da qual era reitor. Impedido de entrar na instituição de ensino que gerira; tendo sua moral abalada pela intempestiva custódia; quando em liberdade, em gesto desesperado, como lenitivo à dor, pôs fim à vida.

Guardadas as proporções, os dois casos se igualam! Ambos, o humilde mogiano e o festejado catarinense, foram alvos de pseudos representantes da sociedade, que, do alto do mando que imaginam ter; guiados, unicamente, por elocubrações que lhes pareçam as mais apropriadas; rasgando o corpo de leis que rege os Estados civilizados; esfacelam vidas, arrebentam honras! E ingressam em caminho tortuoso!

Comprovado o açodamento das ações; desnudado o abuso cometido; quando a chancela de inocente se estampa, sequer se desculpam pelos desmandos perpetrados.

Ao contrário, sob aplauso de uma população que, vivendo instantes de arbítrios e mazelas, convive com desrespeitos os mais variados, apresentam desculpas esfarrapadas, aceitas de imediato.

De diferente, o fato de que a ilustre figura do ensino teve seu caso repercutido a não mais poder. Já o moço do Jardim Piatã, anônimo como são os deserdados, sequer mereceu desculpas de imprensa sequiosa por escândalos. Pouco importou a mancha em sua reputação! Efeitos colaterais!

Lastimo profundamente!