Opinião sobre a proposta de reforma para o Ensino Médio diverge entre os estudantes e educadores do Alto Tietê

"Não podemos nos acomodar, precisamos ficar atentos ao que nos propõem. Fiquei preocupada com a exclusão de disciplinas como História, Sociologia e Filosofia" - FOTO: Suéller Costa
A proposta de reforma do Ensino Médio vem sendo comentada nas redes de ensino do Alto Tietê. No entanto, como nada é oficial e nenhuma regulamentação foi efetivada, ainda não houve uma orientação sobre o tema às diretorias de ensino da região. Diante disso, o que se sabe é baseado nas propagandas veiculadas pelo Ministério da Educação (MEC) pelos diversos canais, impressos ou digitais, da Imprensa. Para acompanhar o debate na região, a jornalista responsável por este suplemento especial entrevistou alguns alunos e professores, e, para estender o assunto, promoveu um fórum entre estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Mario Manoel Dantas de Aquino, de Ferraz de Vasconcelos. Na unidade, cerca de 20 alunos participaram e uma média de dez professores ouvidos. O objetivo era entender como o assunto vem sendo abordado entre o público que será diretamente afetado, os jovens; e os responsáveis em articular as propostas, ou seja, os educadores, e, em especial, os gestores.

Uma das principais reclamações é quanto à falta de orientações, uma vez que se trata de um assunto emergencial, e que, para o seu debate, precisa contar com o envolvimento de todos que atuam com a Educação. "O que eu tenho acompanhado é com base nas notícias e nas minhas pesquisas sobre o tema. Estou achando esta pesquisa anunciada pelo MEC tendenciosa, uma vez que não conheço ninguém que foi ouvido. No entanto, ao estudar a proposta, as sugestões são interessantes, mas, ao conhecer de perto a realidade das nossas escolas, acho inviáveis. Precisamos de muita preparação e organização para a implantação", comentou o professor de Geografia Francisco Chagas do Carmo.

Quem também considera a reforma positiva, porém, inviável, em especial, na rede estadual é a professora de História Angela Cristina da Silva. Para ela, o período para a adaptação será longo. "Eu acho a proposta boa, mas diante da infraestrutura das escolas estaduais, elas se tornam difíceis. Em primeiro lugar, precisamos de mais orientações sobre o assunto e ser consultados a respeito. Infelizmente, tudo é imposto sem nos avisar e consultar. Não acho que a ideia é ruim, mas cada escola tem a sua realidade. E isso é que tem que ser levado em conta durante essas articulações", aponta.

Dificuldades existirão tanto para as redes públicas quanto privadas, mas acreditar em melhorias na Educação brasileira é o que impulsiona os jovens a acreditarem em um futuro promissor. "Eu não vou acompanhar a mudança, mas espero que ela seja colocada em prática para oferecer um ensino melhor para as outras gerações. Se a gente não fazer algo, nunca vamos mudar a realidade do nosso País. Pelo o que eu li a respeito, achei interessante. Gostei do fato de podermos escolher uma área para se aperfeiçoar, e, assim, desde o Ensino Médio, se preparar para o mercado. Também aprovei as disciplinas eletivas, em outros países é assim, e eles possuem um ótimo nível educacional. Quem sabe um dia a gente os alcança?", almeja a estudante Maria Eduarda Souza de Almeida, de 17 anos, do 3º ano do Ensino Médio.

Quem gostou da autonomia que será dada aos alunos é a aluna Mileny Souza Santos, de 16 anos, do 3º ano do Ensino Médio. "Eu acho importante ter uma formação técnica ou mais abrangente em uma das áreas escolhidas. Isso nos ajuda a entrar no mercado de trabalho mais preparado. Muitos jovens já fazem um curso além do Ensino Médio pensando nisso, eu, por exemplo, pelo o que venho estudando, me identifiquei com a Odontologia", explica.

Autonomia

Essa liberdade preocupa alguns educadores, como é caso da Neusa Maria Manja Godinho, que leciona a disciplina de Língua Portuguesa, que, com a reforma, será obrigatória e está entre as matérias consideradas essenciais. Para ela, alguns alunos já são decididos quanto ao que desejam seguir, mas muitos não fazem ideia. Esta é uma fase de questionamentos, quando o jovem se vê diante da necessidade de assumir importantes decisões. "Decidir a carreira nesta faixa etária não é uma tarefa fácil, vejo pelos meus alunos que muitos ainda não se sentem preparados para fazer essa escolha. Acho importante passar por todas as áreas do conhecimento, e, com esse contato, eles irem revelando suas aptidões e descobrindo as suas áreas de interesse, algo que vem sendo feito no momento. Agora, dar liberdade para escolherem a sua própria grade curricular, não acho uma boa ideia".

A estudante Juliana Saijo, 13 anos, do 8º ano do Ensino Fundamental II, ilustra a opinião da educadora. Para ela, que está prestes a ingressar no Ensino Médio, decidir o futuro é uma missão desafiadora. "Aos 15 anos, é difícil tomar uma decisão que refletirá no seu futuro. Algo que, aliás, direcionará a sua vida. Se for levar em consideração os indecisos, esta proposta pode não ser tão viável, pois muitos poderão fazer escolhas incertas com relação às suas áreas de interesse. No entanto, para quem chega no Ensino Médio com uma ideia do que deseja seguir profissionalmente será positivo. Eu, por exemplo, quero ser médica e atuar na área de neurocirurgia. Então, para mim, será positivo desde a adolescência ter aprofundamento em alguns conhecimentos específicos à minha formação", aponta.

Itinerários formativos

Oferecer itinerários formativos é uma das apostas para permitir a flexilibilizacao do currículo do Ensino Médio. E, apesar de alguns educadores, não concordarem em responsabilizar os jovens pelo seu conhecimento, outros, por sua vez, acreditam que este é um dos caminhos para instigar o interesse pela escola e pela viabilidade de adquirir aprendizados avançados naquilo que os instigam. E quem já vivencia a experiência com matérias obrigatórias e eletivas confirma a positividade neste processo. "As matérias extracurriculares me ajudaram a identificar minhas áreas de interesse, e, por meio delas, cheguei à conclusão de que quero estudar Pedagogia. Acredito que a estrutura do Ensino Médio em escolas que têm o Programa de Ensino Integral é ótima, pois, de fato, nos prepara para o mundo que nos espera", aponta a estudante Marina Castilho, de 17 anos, do 3º do Ensino Médio.

Tempo integral

Outro ponto levantado foi o estudo em tempo integral, o que, para alguns alunos é positivo, por estender o período dedicado aos estudos; e, para outros, negativo, por achar que poderá ser cansativo, e, para os jovens que precisam conciliar o trabalho com a jornada estudantil, pode ser inviável. Este ponto da reforma deve levar em consideração as diferentes realidades vivenciadas no cenário educativo. "O ensino integral é interessante para estender o conhecimento. Eu apenas me preocupo com a exclusão de matérias que considero importantes, já que vão se preocupar com temas mais técnicos. Acho que tudo o que aprendemos hoje é válido, só precisamos de mais orientações para nos ajudar com relação aos nossos interesses. Nem todos sabem o que querem seguir desde cedo, e a escola pode nos ajudar nessas decisões", destaca Gabrielle Felix, de 16 anos, que está no 3º ano do Ensino Médio.

Com o período integral, a possibilidade de aumentar o repertório dos alunos é grande, e, com isso, será viável auxiliá-los
nas dúvidas com relação ao futuro. Para a aluna Caroline do Nascimento Correa, 17 anos, do 3º ano do Ensino Médio, que estuda ao longo do dia, a sua experiência revela que a escola a preparou para o caminho que deseja trilhar. "O período integral é excelente, o currículo é diferenciado, os alunos são acolhidos, e os educadores atendem às nossas necessidades. Temos as matérias obrigatórias, mas as eletivas nos guiam para áreas que revelam as nossas habilidades", finaliza.

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