Empreendedorismo passou a ser tendência entre idosos

No Polo Digital, Kazuo Kaneto expôs a sua experiência com o empreendimento na área digital e educacional
No Polo Digital, Kazuo Kaneto expôs a sua experiência com o empreendimento na área digital e educacional - FOTO: Divulgação
Recentemente Kazuo Kaneto completou um ano de uma nova vida. Depois da aposentadoria, ao completar 70 anos de vida e 50 de carreira na área de informática em 2017, ele decidiu investir no desenvolvimento de um novo negócio. Formado em Matemática, este paulistano está em Mogi das Cruzes desde 1986. Membro do Polo Digital de Mogi de Cruzes, o empreendedor comprova a tendência de crescimento do número de empresários com mais de 50 anos.

Estudos do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) dos últimos dois anos indicam que, diante do envelhecimento da população brasileira, há mais empresários com idade entre 50 e 59 anos, enquanto houve queda entre aqueles que têm até 29 anos. Os dados fazem parte da pesquisa Empreendedorismo na 3ª Idade, realizada pela entidade.

O gerente regional do Sebrae no Alto Tietê, Sérgio Gromik, acredita que este é um caminho sem volta. "A questão é a mudança da pirâmide demográfica brasileira. Em 2025, as pessoas acima de 60 anos terão uma participação proporcional maior que aquelas de 0 a 18 anos. É uma parcela crescente, com pessoas que vão querer, vão pensar em empreender", avalia. E este grupo tem amanhã uma data dedicada somente a eles. Neste 1º de outubro, celebra-se o Dia Internacional do Idoso.  

Para realizar o projeto ligado à área de educação, Kaneto transferiu o controle da empresa que tinha para os dois filhos e deu início a uma nova vida. "Quando eu me aposentei, eu parei e fiquei pensando no que eu ia fazer. Retomei minha juventude, como eu decidi a escolha de uma profissão, e escolhi alguma coisa que eu gosto de fazer, que é tecnologia" disse ele, que conta com a consultoria da esposa, Márcia Machado Kaneto, que é professora.

Focado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que deve ser aplicada a partir de 2020, a ferramenta que vem sendo desenvolvida por Kaneto é focada no acompanhamento da evolução do aprendizado do aluno pelos professores, com base em habilidades e competências, usando inteligência artificial. No Polo Digital, ele integra o grupo Edutec, que tem como objetivo gerar um documento com oportunidades para empreendedores investirem na área educacional em Mogi.

Em uma palestra que ministrou no Polo Digital, o empreendedor, ao detalhar a carreira, se classificou neste ano como aprendiz. Um trecho diz "investigue e projete as novidades que surgirão no próximo ano, daqui a cinco anos e daqui a dez anos". A pesquisa do Sebrae reforça as ideias trabalhadas por Kaneto, destacando que os empresários com 60 anos estão sempre aprendendo, e os negócios foram abertos há não mais de 5 ou 10 anos.

O empreendedor conhece os limites físicos que vem com a idade, mas sua mente não para. "Estou fazendo o que eu gosto, por isso eu não me canso. Mentalmente sou muito ativo, mais que muitos jovens. A única coisa que pesa é o físico, mas não atrapalha em nada os meus objetivos", ressalta. Kaneto sonha ainda com uma nova faculdade, talvez na área de Gastronomia. 

Motivação

E o "detalhe" da idade cronológica também se comprova na pesquisa elaborada pelo Sebrae. Gromik salienta que o empreendedorismo nesta fase da vida representa uma dupla oportunidade e contribui para uma maior longevidade: "O ato de empreender tem o resultado financeiro, mas também a realização pessoal. Estas pessoas podem ter mais 20 anos e continuar nesta nova atividade".

IDOSOS FOCAM EM METAS E OBJETIVOS

Um diferencial no perfil dos idosos empreendedores é o risco calculado. Segundo a pesquisa Empreendedorismo na 3ª Idade, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), são pessoas mais ponderadas e que definem melhor metas e objetivos. São mais experientes, seguros e acreditam no negócio próprio, e têm a segurança da aposentadoria.

Para formalizar o empreendimento, a maioria opta pelo cadastro como Microempreendor Individual (MEI), de acordo com Sérgio Gromik, gerente regional do Sebrae: "Eles são receptivos à formalização e não para garantir a aposentadoria ou pela assistência social, mas para fazer o certo, abrir a empresa, ter seu CNPJ e cumprir as obrigações. Há um viés conservador no melhor sentido, uma característica inerente".

Os formalizados contam com o programa Super Mei do Sebrae, que oferece capacitação em técnicas de gestão e acesso a crédito orientado de até R$ 20
mil com juro zero para pagamento sem juros em até 36 meses. Há outras fontes de financiamento, como o Banco do Povo. "Pessoas com mais de 60 anos têm um grau de adimplência acima de outras faixas etárias. O nome é um ativo para este grupo", afirma Gromik.

Por outro lado, há resistência à elaboração do plano de negócios. "Falamos que a hora de errar é no papel e não na vida real. É algo novo para eles. Há 30, 40 anos pouco se falava em plano de negócios", finalizou.(K.B.)

APOSENTADO APOSTA EM NOVA CARREIRA

A busca por novas oportunidades depois dos 60 anos pode não significar necessariamente um novo negócio, mas sim uma guinada profissional. Tomaz Vicente da Costa, de 71 anos, se aposentou como protético e atualmente inicia uma carreira como corretor de imóveis. Nascido em Minas Gerais, desde os oito anos de idade mora em Mogi das Cruzes. 

Costa participa de um curso sobre Internet oferecido pelo escritório regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Já atuando em plantões de venda de imóveis, ele fará o curso do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci).

Divorciado, ele conta com o apoio dos quatro filhos para realizar o seu novo projeto profissional: "Estou aposentado há um ano e não consigo ficar parado. A corretagem foi algo muito bom, sempre trabalhei com vendas, e mesmo como protético tinha que fazer um trabalho assim para fechar os orçamentos. Eu não sinto o peso da idade".

O gerente regional do Sebrae, Sérgio Gromik, destaca que não há um recorte específico nas atividades promovidas pela entidade, mas é perceptível esta nova demanda e começa-se a pensar em algo mais voltado para conhecer e atender de forma melhor este grupo.

Gromik cita ainda o exemplo de um médico que participou de uma oficina sobre como iniciar bem uma atividade profissional. "Todos se apresentaram e o médico, de 60 e poucos anos, falou que queria dar uma guinada na vida, buscar novos desafios, contato com novas pessoas. Não mais clinicar ou operar", conta o gerente regional. (K.B.)

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