Meu guri

Pelos olhos dos artistas, conseguimos enxergar aquilo que, por vezes, passa, por todos nós despercebido. Proporcionam a visão da beleza onde, para nós, ela não existe. Nos fazem sentir a tristeza daqueles que habitam o submundo do desconhecido e nos revelam a vida como ela é.

A música "Meu guri", de autoria de Chico Buarque e, para mim, eternizada na bela voz de Beth Carvalho, retrata o dia a dia de moradores de locais desprovidos da presença e das ações do poder público, comunidades assoladas pela miséria e vítimas diárias da violência urbana. De um ciclo perverso, onde jovens se tornam pais e mães de maneira precoce, não tendo condições de criar seus filhos com a experiência e sabedoria que só o tempo os contemplará, surge uma nova geração de alienados que, por falta de informação, não vê perspectivas no futuro e nem a importância dos estudos.

Embora, como todas as crianças, providas de sonhos, esses são destruídos pela dura realidade e, ao invés de mantê-los vivos, tem no crime uma oportunidade de ascensão financeira e social. Iniciam com pequenos furtos e roubos, cujos produtos, se não escoados pela rede de receptadores, são levados para suas casas e, por vezes, dados como presentes a seus incautos e ignorantes familiares. É o caso da personagem da obra, a qual, com orgulho, cita seu filho como um esforçado trabalhador, enaltecendo-o pelas conquistas obtidas.

Como numa promoção, deixam os pequenos delitos e partem para o crime organizado. Tráfico de entorpecente e roubo de carga são as modalidades criminosas responsáveis pela captação de mão de obra jovem, sendo considerados "soldados do crime". De temperamento explosivo, audaciosos e detentores de ambição, são eles os responsáveis pela execução dos crimes e por combater facções criminosas rivais, bem como resistir às ações das forças de segurança, o que os leva à triste estatística de não conseguirem chegar aos 26 anos. Termina a música, como todos os dias, com os lamentos da mãe chorando a morte do seu filho.