Não ao revisionismo

Ganha força no governo federal e entre seus apoiadores um discurso revisionista que não se constrange de negar evidências científicas e menos ainda fatos históricos. A lista de negações é grande, indo do exotismo da crença de que a Terra é plana, passando pelas arriscadas teses de que as vacinas fazem mal à saúde e de que o cigarro não faz mal algum, chegando à loucura de negar o esgotamento dos recursos naturais.

Há um grau de maldade nesse revisionismo que, embora conhecido por seus propagadores, não os faz parar, porque não se importam com a verdade dos fatos e menos ainda com as consequências do que dizem. Em novembro de 2018, numa escola da Carolina do Norte, EUA, verificou-se um surto de catapora entre as crianças de uma comunidade antivacina como não se via desde que a vacina contra o vírus varicela-zóster, causador da catapora, foi introduzida no país.

O estrago pode ser ainda maior quando os erros do passado são relativizados, ou pura e simplesmente negados, abrindo a porta para que se repitam. Neste campo, o revisionismo é oficial: por determinação do presidente da República, no 31 de março as Forças Armadas comemorarão os 55 anos do golpe militar que escreveu as páginas mais escuras e repugnantes da nossa história. Não é necessário relembrar todos os crimes da ditadura, pois atualmente são amplamente conhecidos - principalmente pelos revisionistas.

O revisionismo revela seu caráter cruel ao tentar legitimar novas versões da história, ou interpretações incongruentes dos fatos, sem considerar as consequências dessa opção. "Houve uns probleminhas naquela época", afirmou o presidente; "Arrancaram algumas unhas", desdenhou um roqueiro decadente; "Foi uma 'ditabranda'", amenizou, em editorial, a Folha.

Não há como fugir da realidade: a terra é esférica, vacinas previnem doenças, cigarro mata, a destruição da natureza vai nos custar a vida, e a ditadura torturou e assassinou inclusive crianças que não representavam risco algum a quem quer que fosse.