Revolução ou golpe?

A ditadura militar exerceu tamanha força na política brasileira que é responsável, inclusive, por uma distorção no registro da história do país, que durou mais de 20 anos. O episódio de 31 de março de 1964, que hoje completa 55 anos - quando as Forças Armadas, com apoio da parte mais conservadora da sociedade, decidiram tomar o poder e instaurar o regime militar -, entrou para os registros históricos com a denominação de Revolução de 64. Durante algum tempo a classificação foi imposta para as crianças nas escolas e fez parte dos livros didáticos.

O tempo, porém, tratou de corrigir essa camuflagem literária a custo de muito sofrimento dos grupos oponentes ao regime. Com a volta da democracia a partir de 1985, oficialmente, o que antes era uma revolução passou à definição mais apropriada de Golpe de 64, uma ação que se sobrepôs à Constituição para ocupar e exercer o poder, com base em conceitos autoritários e parciais. A pior contribuição do regime ditatorial foi a tentativa, frustrada, de aniquilar a classe pensante como forma de preservar as diretrizes, os desmandos e os benefícios próprios.

Nascido em 1955, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) é produto dessa geração que assimilou a ideia de revolução. Seguiu carreira militar e chegou ao posto de capitão para, depois, enveredar na casta política. Como deputado, foi mais do mesmo, sem acrescentar nada de proveitoso ao Legislativo. Por uma dessas ciladas históricas, alcançou o posto máximo no país e hoje é, legitimamente, o chefe da nação. Está perto de completar cem dias de mandato sem, no entanto, conseguir estabelecer um padrão de governo que não seja o da polêmica rasa verbal.

Durante a semana, com uma proposta de resgatar as suas origens e reacender a farsa da revolução, Bolsonaro orientou implicitamente os quartéis a comemorarem a "data histórica" de 31 de março. Mais sensatos e pressionados pela oposição, os generais trataram de pedir cautela aos comandados. Com a crise entre os poderes borbulhando em Brasília, o melhor mesmo é deixar a questão ideológica em banho-maria para não entornar de vez o caldo.