Governo em risco

A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública coloca em xeque, definitivamente, o futuro do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Na quinta-feira da semana passada, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tomou rumo idêntico ao de Moro, cumprindo um roteiro bastante parecido. Com autonomia de ações que incomodavam o presidente da República, Mandetta entrou em rota de colisão com Bolsonaro por defender o isolamento social enquanto seu superior fazia questão de quebrar os protocolos de distanciamento, minimizando os riscos de contaminação do coronavírus. O ministro defendia um discurso uniforme, não conseguiu e entregou o cargo.

No caso de Sergio Moro, a situação ficou ainda mais complicada para Bolsonaro. Insistindo em trocar o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, e não tendo a concordância de Moro, o presidente decidiu, assim mesmo, publicar no Diário Oficial durante a madrugada a demissão do funcionário. Foi a última gota das divergências entre ambos, que se acentuaram desde o final do ano passado. Moro, porém, não saiu quieto. Em seu discurso para oficializar a entrega do posto, o ex-ministro acusou o presidente de interferência política no comando da Justiça, postura assumida pelo próprio Bolsonaro, embora desmentida por ele mesmo durante o pronunciamento em rede nacional que fez no final da tarde de ontem. Segundo ele, a intenção da Presidência é ter no comando da PF alguém que revele detalhes das investigações, procedimento que não era obedecido por Valeixo. A acusação é gravíssima.

Para piorar, a ala de ministros militares, que tentou a todo custo demover Sergio Moro da decisão de se demitir, preocupada com os efeitos ao governo, se sentiu traída com a atitude de Bolsonaro na troca de comando da PF. Até então, com apoio ao presidente, os ministros discutem se ainda é viável prosseguir na batalha. Na avaliação dos militares, Bolsonaro fica a cada dia mais isolado e, suas atitudes, de cunho pessoal e indiscutíveis, não estão contribuindo para a sustentabilidade do governo. No caso de Moro, a conclusão é que Bolsonaro não perdeu um ministro, mas ganhou um forte inimigo político.

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