Como o cético: ser!

Outro dia reservei a tarde de céu azul para dialogar com o cético, que vez ou outra aparece: tocado sempre pelo vinho primitivo, é bom que se diga! Céu azul? O toque do homem é como o de Schubert. Chega-se a ele triste, deprimido, à beira do desencanto, e sai-se da conversa sob o raio amarelo de sol que Nietzsche via na música de Bizet. E, de novo, a frase inepta: raios de sol sugerem uma alegria imbecil, de estábulo, sem cantor sertanejo por perto.

O que o enigmático cético oferece é bem diferente! Se o seu paralelo pode ser feito com a música, não será Schubert, mas Beethoven, e talvez, mais ainda, Bach. É a alegria dos homens, não a mera satisfação! A compreensão de algo fundamental: fato que se esquiva e se esconde na certeza de não ser descoberto!

É certo o tipo de mundo que o cético desvenda, com plausibilidade e quase eloquência diabólica, não é um mundo moral! Nenhuma sequência infantil de causas virtuosas e efeitos edificantes! Tem até um laivo, ateu, para não dizer demoníaco, que pode ser até desconcertante para qualquer estudioso do Livro. A divindade que ele visualiza não é um velhinho bondoso e de chinelas, incutindo os grandes princípios da ética pela aplicação de sanções a posteriori. O que ele vê nele é outra coisa: um improvisador e comediante, extremamente engenhoso e bem humorado, com uma pitada de vermelho carmim no nariz, mas que talvez tenha momentos de desencanto, quando se torna furioso tocador de banjo nas costelas humanas.

Uma das curiosidades da estupidez daqueles que não o entendem é a ideia de que o cético não tem humor. Isso decorre de um erro mais amplo: o de que a tragédia é sempre patética e de que a derrota é um assunto desagradável. Adotar a teoria contrária: vê-la como um grande espetáculo moral e espiritual, capaz de expurgar e levantar a psiquê como o casamento de uma viúva manquitola ou passar um mês nas trincheiras, como saída turística! Brincar com tais noções não é adotar padrões críticos de uma reunião de velhas que choram pelos desmandos políticos?