Vaticano e China firmam acordo, apesar da perseguição religiosa

Cardeal Joseph Zen critica termos do acordo
Cardeal Joseph Zen critica termos do acordo - FOTO: Reprodução
A China e o Vaticano renovaram um acordo polêmico sobre a nomeação de bispos católicos no país comunista, atraindo críticas de grupos de direitos humanos que alertam que o acordo vai prejudicar ainda mais a liberdade religiosa no contexto chinês. Na quinta-feira passada, a Santa Sé e o Ministério das Relações Exteriores da China anunciaram a renovação do acordo de 2018, que expira neste mês de outubro, por mais dois anos.

O acordo, cujos detalhes nunca foram publicados, permite que o governo chinês proponha ao Vaticano nomes para novos bispos, por meio de sua Associação Católica Patriótica Chinesa, aprovada pelo Estado, com o papa tendo poder de veto na decisão.

Por sua vez, o Vaticano reconhece a legitimidade dos bispos anteriormente indicados pelo governo chinês e excomungados pela Igreja. "A Santa Sé considera que a aplicação inicial do acordo - de grande valor eclesial e pastoral - foi positiva, graças à boa comunicação e cooperação entre as partes sobre os assuntos acordados, e pretende prosseguir um diálogo aberto e construtivo para o benefício da vida da Igreja Católica e do povo chinês", disse o Vaticano, em comunicado.

A Igreja assinou o acordo na esperança de promover a unidade entre os cerca de dez a 12 milhões de católicos da China. "O diálogo entre a Santa Sé e a República Popular da China favorece a busca do bem comum para o benefício de toda a comunidade internacional", disse.

No entanto, ativistas argumentaram que o Vaticano aparentemente legitimou a China em um momento em que continua a perseguir e oprimir as minorias religiosas.

Após a assinatura do acordo provisório em 2018, o governo chinês lançou uma campanha para eliminar as igrejas católicas "ilegais", exigindo que cada padre assinasse um documento para aderir à "Igreja independente".

O documento exigia que os padres recusassem relações com estrangeiros, proibissem a educação religiosa para jovens com menos de 18 anos e limitassem as atividades religiosas somente às igrejas.

A organização de vigilância sobre perseguição religiosa International Christian Concern observa que a China concentrou seus esforços em "coagir o clero clandestino a se juntar à Associação Católica Patriótica Chinesa ou forçá-lo a renunciar às suas posições".

Mencionou especificamente o caso do bispo Guo Xijin, na diocese de Mindong - que foi detido por se recusar a assinar um documento aderindo à "Igreja independente" estatal - e Zhuang Jianjian na diocese de Shantou, um bispo de 88 anos, forçado a aposentar-se depois de se recusar a aderir à Igreja Católica aprovada pelo Estado.

Gina Goh, gerente regional da International Christian Concern para o Sudeste Asiático, chamou a renovação de um "tapa na cara dos católicos clandestinos". Ela ressaltou que, apesar do acordo, os católicos clandestinos - não ligados ao Partido Comunista Chinês - continuaram a enfrentar perseguição e opressão com padres e freiras ameaçados ou presos.

"A melhoria do tratamento para os fiéis, reivindicada pelo Vaticano, nunca se concretizou e, em vez disso, acabou sendo pior", disse ela. "É muito lamentável que a Santa Sé tenha decidido dançar com o lobo e sacrificar os católicos clandestinos da China por seus próprios motivos".

O cardeal Joseph Zen, bispo emérito de Hong Kong, disse à Voice of America que, apesar das alegações, o acordo pouco fez para proteger a liberdade religiosa dos católicos chineses. "O que está indo bem? Como dizer que está indo bem se você nem mesmo nomeou um único bispo?", disse. "Deve haver um motivo político por trás disso. [O Vaticano] realmente pensa que um dia pode construir relações diplomáticas com a China. Quando há uma negociação, significa que há uma esperança para o estabelecimento de relações formais".

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