Avanço da vacinação aumenta a desigualdade no mundo

Cerca de dez países, a maioria na África, sequer aplicaram uma única dose da vacina
Cerca de dez países, a maioria na África, sequer aplicaram uma única dose da vacina - FOTO: Irineu Junior/Secop Suzano

O avanço das campanhas de vacinação contra a Covid-19 no mundo, que bateu nesta semana a marca de 1,6 bilhão de doses aplicadas, ampliou a desigualdade entre países ricos e pobres. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os países de alta renda, com 15% da população mundial, compraram 45% de todas as vacinas disponíveis. Cerca de dez países, a maioria na África, sequer aplicaram uma única dose

O Chade é um deles. Com 15 milhões de habitantes, o país só deve receber as primeiras doses da Pfizer em junho. Médicos e enfermeiros ainda não foram vacinados. Também não começaram a vacinação Burkina Faso, Eritreia, Burundi e Tanzânia - que, em fevereiro, disse que não pretendia "aceitar" vacinas. Pequenas ilhas do Pacífico, como Vanuatu, também não iniciaram campanha de vacinação, mas têm menos urgência porque não registraram grandes surtos.

O cenário preocupa especialistas. A OMS estima que a lenta vacinação em alguns países pode prolongar a pandemia do cornavírus. Os grandes laboratórios afirmam que seria possível imunizar a maioria da população mundial até o final de 2021, mas especialistas alertam que países mais pobres podem conseguir terminar a inoculação apenas em 2024.

O cenário favorece o surgimento de novas variantes, mais contagiosas e letais, como as cepas identificadas na África do Sul e na Índia, que podem ser resistentes às vacinas, comprometendo a imunidade em todo o mundo. "Nós já sabemos que uma variante, a sul-africana, é menos suscetível à proteção da vacina da AstraZeneca", afirmou o epidemiologista Chris Beyrer, da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. "Enquanto as pessoas mais suscetíveis não forem imunizadas, o vírus continuará evoluindo, e isso pode minar a geração atual de vacinas".

As causas para a desigualdade no acesso às vacinas são muitas. A primeira, mais óbvia, é de ordem econômica. Países mais pobres têm dificuldades para comprar doses e enfrentam problemas de infraestrutura e distribuição. O 'nacionalismo da vacina', ou concentração de vacinas por parte de países ricos, é outra - como poucas vacinas foram aprovadas e a capacidade de produção é limitada, nações que conseguiram encomendar grandes estoques saíram na frente.

Além disso, a logística é um grande problema. "As vacinas que usam RNA mensageiro (como Pfizer e Moderna) são muito eficientes e muito seguras. Mas são difíceis de fazer, armazenar, distribuir", explicou Beyrer. A quebra de patentes, posição agora defendida pelos EUA, não seria uma solução mágica, acredita. "É uma ciência muito avançada, e levantar as patentes não mudaria nada no curto e médio prazo, porque precisaria haver uma transferência significativa de tecnologia e de capacidade de construção (de laboratórios). ".

A preocupação se estende a países que já adquiriram vacinas, mas não conseguem acelerar suas campanhas. Quase 30 entre eles África do Sul, Austrália e Armênia, aplicaram a primeira dose em menos de 1% da população. Só 20 países ultrapassaram a marca de 50%. A imunização com vacinas de menor eficácia - como a russa Sputnik e a chinesa Sinovac - também pode ser um problema.