Ex-cunhada liga Jair Bolsonaro a esquema

Presidente exerceu mandatos como deputado de 1991 a 2018
Presidente exerceu mandatos como deputado de 1991 a 2018 - FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil

Áudios revelados ontem em reportagem do portal UOL, ligam o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), quando ele ainda era deputado federal, a suposto desvio de salários de assessores parlamentares - esquema conhecido como "rachadinha". Bolsonaro exerceu mandatos como deputado de 1991 a 2018. A reportagem divulgou gravações atribuídas a Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada de Bolsonaro.

"O André (irmão dela e da segunda ex-mulher do presidente, Ana Cristina) deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6 mil, ele devolvia R$ 2 mil, R$ 3 mil. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: 'Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'", disse ela em um dos áudios.

Dados obtidos via quebra de sigilo bancário e fiscal já apontavam indícios da prática no antigo gabinete dele na Câmara. A devolução indevida pode configurar crime de peculato. Esse delito ocorre quando servidor se apropria ilegalmente de verba pública.

O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) já foi denunciado, com outros suspeitos, pelo Ministério Público do Rio por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa por supostos desvios semelhantes. Foi nessa investigação que se obteve a quebra de sigilo de vários ex-assessores da família, além de mandados de busca e apreensão. A apuração foi aberta pelo Ministério Público do Rio. O motivo foi um relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) na Operação Furna da Onça. O documento apontou movimentações financeiras atípicas de assessores ligados a mais de 20 deputados estaduais.

Um desses parlamentares era Flávio, então com mandato na Assembleia Legislativa fluminense. A existência da investigação foi revelada com exclusividade pelo Estadão, em dezembro de 2018 Outro filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) também é investigado sob suspeita da mesma prática. Nesse caso, negado pelo "Zero Dois", os desvios teriam ocorrido na Câmara Municipal do Rio. Lá, a segunda ex-mulher do hoje presidente, Ana Cristina Siqueira Valle, foi assessora de Carlos.

A rachadinha consiste, na prática, em empregar funcionários "fantasmas". Esses servidores devolvem partes significativas dos salários aos parlamentares que os nomeiam. Com isso, uma pessoa que não trabalha ganha um valor razoável. Já o político ganha ainda mais dinheiro por meio do desvio de recursos públicos. Em alguns casos, a suspeita é que quase todo o salário fosse devolvido aos deputados.