Possíveis sequelas pós-Covid preocupam médicos e pacientes

Além da doença, há a sequela que ela deixa
Além da doença, há a sequela que ela deixa - FOTO: PMMC/Divulgação

A pandemia de coronavírus (Covid-19) completa seu primeiro ano com centenas de milhares de mortos, milhões de infectados, mas ainda com uma incógnita: como será a vida de homens e mulheres que passaram pela doença, em suas diferentes formas, e que ficaram com sequelas e danos residuais?

A médica psiquiatra Carla Rezende, 54 anos, teve Covid-19 no final de março do ano passado, mas não apresentou sintomas da forma grave da doença em um primeiro momento, com apenas dores de cabeça e nas costas. Quatro meses depois, exames revelaram que os pulmões apresentaram uma fibrose bilateral - uma espécie de calcificação, que teve melhoria após passar por um ciclo de fisioterapia.

Carla, que não tem vícios e pratica esportes constantemente, sentiu fortes dores no peito durante um trajeto de bicicleta meses depois da doença, o que a levou novamente ao médico. Após exames, foi constatada uma arritmia cardíaca, causada pela fibrose em parte do músculo do coração por conta da Covid-19. "Agora, para evitar o risco de agravamento da arritmia, será necessário passar por um procedimento chamado abrasão, onde um cateter terá que ir até as veias do coração para eliminar o tecido calcificado", explicou.

A médica, que atua no Hospital Regional Dr. Osíris Florindo Coelho, de Ferraz de Vasconcelos, apontou também que a pandemia agravou a condição psicológica de quem teve e quem não teve a doença. "Os casos de ansiedade e depressão aumentaram demais, devido ao luto nas famílias, o distanciamento social e a mudança drástica na rotina das pessoas. Este vírus mudou nosso mundo de uma maneira definitiva", concluiu.

Otto Fábio Flores Rezende, que é médico imunologista e também exerce o cargo de vereador em Mogi das Cruzes, explicou que a doença causada pelo vírus Sars-CoV-2 ainda está sendo compreendido em sua plena extensão no corpo dos pacientes, com suas sequelas sendo catalogadas à medida que ocorrem.

"O novo coronavírus não apenas deixa marcas no pulmão, mas causa arritmia no coração, e deixa marcas em outras partes do corpo. O acompanhamento deverá acontecer ainda por anos para verificar totalmente quem foi afetado pelo vírus", explicou o médico.

O imunologista informou que o poder público deverá investir no futuro, com o encerramento da pandemia, em uma rede ambulatorial para acompanhar e tratar as condições colaterais causadas pela Covid-19. "Atualmente a rede ambulatorial chega a acompanhar alguns casos, mas não há uma capacidade plena para atender a demanda potencial. Hoje, um em cada seis pacientes que chegou a ficar intubado morre depois de seis meses devido a sequelas da doença. Precisamos pensar no futuro para além dos leitos de UTI, que hoje são a nossa principal demanda", concluiu o médico.

Poder público

O secretário de Saúde de Mogi das Cruzes, Henrique Naufel, confirmou que o acompanhamento diário de pacientes mostrou o potencial da doença em deixar sequelas, sendo mais comuns os relatos de cansaço, dificuldade para respirar, dores musculares e recuperação lenta do olfato e do paladar. "No momento, a Secretaria Municipal de Saúde está focada no atendimento da doença aguda. Já o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) tornou-se referência para atendimentos aos pacientes com sequelas pós-internação por Covid-19", afirmou o secretário.

Outra especialidade preparada para o AME localizado no Jardim Santista em Mogi é a Fonoaudiologia, para um plano terapêutico visando recuperar problemas na fala, voz ou alimentação. "O encaminhamento é feito pelos hospitais, unidades de saúde e pela Secretaria Municipal de Saúde. Ele é feito sem necessidade de agendamento por parte do paciente, e uma enfermeira capacitada do AME faz o contato para elaboração de um breve histórico do paciente e agendamento de exames. A triagem inicial avalia ainda se o paciente possui critérios para o atendimento pós-Covid, se persistem sintomas respiratórios, dificuldades de fala, dores de cabeça ou qualquer outra sequela", finalizou Naufel.

Deixe uma resposta

Comentários