Filhos compartilham diferentes histórias neste Dia das Mães

O casal Lourdes Benedita de Melo
e Geraldo Pedroso de Jesus
O casal Lourdes Benedita de Melo e Geraldo Pedroso de Jesus - FOTO: Arquivo Pessoal

Este é mais um Dia das Mães a ser comemorado de maneira cautelosa, mantendo as restrições para conter a Covid-19, afinal, o vírus ainda assola o país, que soma mais de 400 mil óbitos pela doença. Para que a data não seja esquecida, filhos programam comemorações a distância e, os que ainda moram com suas mães, preparam o tradicional almoço de domingo.

Por outro lado, existem também os filhos que enfrentam o estado de luto pela perda de suas mães para a Covid-19. Sem comemorações, hoje será um dia para relembrar os momentos de alegria e aprendizado ao lado daquelas que os deram à vida. Em todo o Alto Tietê, houve mais de 3,6 mil vidas perdidas pela doença viral desde o início da pandemia.

Há ainda os filhos que enfrentaram a doença junto com as mães e retiraram do período de recuperação diversos aprendizados que devem ser levados por toda a vida. Aprender a valorizar cada vez mais aquela que deixa a própria saúde de lado para cuidar dos filhos; aquela que se dispõe a ajudar de todas as maneiras e em quaisquer circunstância é uma das maiores lições.

Embora este ainda seja um ano de muita tristeza como o foi o ano passado, famílias que se recuperaram juntas da doença entenderam que, apesar dos conflitos, é necessário amar.

FILHOS PERDEM MãE E PAI EM INTERVALO DE 24 HORAS

Hoje é uma data em que diversos filhos lidam não só com a ausência das reuniões em família como de suas próprias mães que, apesar de todos os cuidados e tratamentos, foram vítimas da Covid-19. Em 24 horas, os três filhos de Lourdes Benedita de Melo e Geraldo Pedroso de Jesus, de 57 e 54 anos, entraram em luto pelas duas vidas perdidas.

Um de seus filhos, Rafael, de 32 anos, contou que os dois sempre faziam tudo juntos. "Neste momento de luto, a nossa forma de superar a ausência dos nossos pais tem sido a fé e a proximidade com Deus, que tem nos confortado", explicou o autônomo que reside em Arujá.

Lourdes foi internada no dia 20 de abril e faleceu após quatro dias. Ela precisou ser intubada devido à gravidade da saúde, mas teve uma parada cardíaca no início do processo. No dia seguinte, Geraldo Pedroso precisou ser transferido de Arujá para Suzano, e também não resistiu às complicações do vírus.

"Este Dia das Mães vai ser muito doloroso, nós sempre nos reunimos para comemorar juntos. Os meus pais eram muito unidos, acredito que um não viveria sem o outro e isso também me conforta", disse o filho Rafael.

Após a contaminação dos pais, que moravam sozinhos, os três filhos também se contaminaram, mas já estão recuperados da Covid-19. Rafael explicou que eles tomavam todas as medidas sanitárias necessárias e alertou a população dizendo que "todo o cuidado é pouco".

"Psicologicamente, nós três estamos estáveis com toda esta situação, mas continuo aconselhando que as famílias sigam as recomendações para não contrair a Covid-19. Não fiquem visitando os seus parentes e cumpram todas as regras", acrescentou. Este será o primeiro Dia das Mães sem a sua mãe e, mais do que isto, sem o pai também.

PERíODO DE RECUPERAçãO DA COVID DESPERTA ENSINAMENTOS ETERNOS

A recuperação de uma doença, que para diversas pessoas foi repentina e devastadora, tem reaproximado mães e filhos desde a chegada da pandemia. Ainda que a Covid-19 entristeça inúmeras famílias, os filhos que se recuperaram juntos às mães puderam retirar ensinamentos que levarão para toda a vida, como é o caso do estudante Rafael Barros dos Santos Pereira, de 22 anos.

Mesmo quando ambos estavam em tratamento contra a Covid-19 com muitos sintomas, Sueli, de 41 anos, manteve os cuidados e atenção de mãe para filho. Por muitas vezes, conforme explicou Rafael, ela colocava a saúde e bem estar de seus filhos acima da própria saúde.

"Se eu precisasse de alguma coisa, por mais que estivéssemos cansados, ela era sempre a primeira a levantar para me atender. Aprendi que mãe não é apenas um título, mas sim alguém que realmente me ama e está disposta a cuidar de mim mesmo não estando bem", agradeceu o estudante.

Outro aprendizado neste período de recuperação da Covid-19 foi a importância em valorizar as pessoas que estão por perto em todos os momentos, sejam eles bons ou ruins. Para Rafael, uma dessas pessoas foi sua avó que, mesmo longe, não deixou de prestar apoio a toda a família.

"Minha avó não podia ir na minha casa para não contrair o vírus, mas ela sempre enviava comidas e quaisquer outras coisas que precisássemos. Durante os três períodos do dia ela também enviava mensagens perguntando como estávamos", acrescentou.

Além dele e de sua mãe, sua irmã e seu pai também contraíram o vírus. Apesar da pouca idade e uma vida saudável, Rafael passou dias internado e recebendo oxigenação artificial. Isso ocorreu devido à doença desencadear as crises de asma que acometiam o estudante desde pequeno.

QUARENTENA E ATIVIDADE REMOTA APROXIMAM FAMILIARES

Em meio aos conflitos que podem surgir como consequência de um longo período de convivência no mesmo lugar, algumas famílias têm aproveitado o momento para trocar experiências. Com o trabalho remoto, os pais e irmãos da professora de Artes, Graziele Barbosa da Silva, estão não só trocando boas risadas como também têm compreendido melhor o trabalho um do outro.

Além de Graziele, a mãe Juslenni Yonni e a irmã Denise estão trabalhando em casa, assim como os seus dois irmãos. Para elas, este tem sido um momento único, que a família não havia vivenciado antes.

"Outro momento em que nos víamos era no fim do dia, mas geralmente estávamos cansados, então a troca em família acontecia mais pelo WhatsApp e quando não tínhamos compromissos", explicou a professora.

Em comemoração ao Dia das Mães deste ano, os filhos pretendem criar uma programação diferente, mantendo os cuidados contra a Covid-19. "Além de um almoço em família, provavelmente vamos fazer alguma coisa fora do comum, para sair da rotina. Assistir um filme juntos e fazer chamada de vídeo com minha avó ou tios para matar a saudade são algumas opções", apontou Graziele.

ORGULHO DE SER FILHA DE UMA ENFERMEIRA NA LINHA DE FRENTE

As mães que atuam no setor da Saúde, embora já vacinadas contra a Covid-19, continuam seguindo todos os protocolos sanitários quando voltam para casa. O anseio em proteger os filhos de um vírus que é transmitido aceleradamente e pode ser fatal tem sido prioridade há mais de um ano.

Marly da Silva Benevides, mãe de Rafaela, atua como enfermeira e mesmo imunizada tem redobrado os cuidados sanitários. A estudante de Odontologia explicou que em alguns momentos a mãe preferiu se manter distante fisicamente mesmo em sua própria casa.

"Ela estava com medo de ser assintomática ou não sentir os sintomas do vírus por já ter se vacinado e acabar trazendo ele para casa, por exemplo", disse a estudante. Para Rafaela, é desesperador saber que a própria mãe está mais vulnerável à doença.

Seu cuidado como filha ultrapassa as medidas de higienização. A estudante contou que ao longo do dia sempre se certifica de que a mãe está seguindo todos os protocolos contra a doença. "Toda hora eu mando mensagens para ver como ela está, se está usando os EPIs de forma correta. Esse vírus é devastador", lamentou.

Por este motivo, Rafaela apontou o quão necessário é dizer "eu te amo" e agradecer todos os dias pela saúde da família de cada um. Marly Benevides é seu grande orgulho porque, além de mãe, é também uma das profissionais na linha de frente contra a doença.

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