O ócio depressivo

Mauro Jordão
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Semana do Natal, visita à cadeia pública para distribuição, aos encarcerados, de guloseimas acompanhadas de literatura cristã. Numa das celas, disputando o espaço com muitos, um preso, encostado à grade, segredou-me o desejo de possuir a caixa de papelão que levava os confeitos, após a distribuição. Intrigado, pergunto: "Para quê?" Respondeu-me: "Cela cheia, amigo, sem nada para fazer uma caixa dessas é uma preciosidade em nossas mãos, um meio de ocupar o tempo e evitar a loucura da ociosidade".

Domenico De Masi, sociólogo italiano, autor de sucesso de livro O Ócio Criativo, esta confinado em casa, como milhões de pessoas, abrigado da pandemia. Lendo e refletindo sobre o momento, afirma que o coronavírus mostra que podemos viver bem consumindo menos e pensando mais.

Então, vamos adotar a filosofia do menino lobo Mogli, o urso Baghera e Baloo: "Somente o necessário/ O extraordinário é demais/ Eu digo o necessário/ Somente o necessário/ Por isso é que essa vida/ Eu vivo em paz".

Temos de privilegiar o essencial como também aproveitar do ócio para crescer culturalmente e espiritualmente: lendo bons livros, meditando na Palavra de Deus, ouvindo boa música, passando o tempo com jogos educativos e trabalho manual criativo, escolhendo programas inteligentes na TV, dialogando com pessoas mais cultas pela comunicação falada ou escrita. De Masi comenta que antes da pandemia tínhamos muito espaço à nossa disposição e pouco tempo para usufruir dele, assoberbados por mil compromissos muitos dos quais inúteis e sem sentido.

Deixamos de ser senhor para se tornar escravo do tempo. "Portanto", diz o apóstolo Paulo, "vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus". Efésios 5: 15-16. A efetividade do ser humano o faz alcançar suas metas de produtividade, porém, a sua escassa produção emocional de afetividade o tem levado à escura solidão, causa do ócio depressivo. Viver com afeição lança fora a amargura do coração.