Um feriado diferente

O dia a dia não nos reserva muito espaço para reflexões - é para isso que os feriados servem, em um breve momento em que podemos ter um dia, uma hora, um instante para nos cuidar e pensar não apenas em nós, mas nas coisas que estão ao nosso redor - e, principalmente, aquelas que não estão.

Milhões de veículos seguem pelas estradas que cortam o Alto Tietê neste feriado prolongado de Nossa Senhora Aparecida, tanto para a devoção no santuário da basílica, quanto para as praias do litoral paulista ou no Rio de Janeiro. Diferentemente de outros feriados, a demonstração de fé dos peregrinos que em suas caminhadas buscam a meditação e a resposta para as dúvidas suscitadas por este mundo traz um novo significado pelo flagelo da pandemia do coronavírus (Covid-19).

Nesta semana, o Brasil chegou à marca de 600 mil vidas perdidas pelo vírus. Seiscentos mil pais, filhos, irmãos, maridos e esposas destas pessoas que hoje seguem o caminho de sua fé, ou buscam novamente a vida e a sensação de normalidade, há tanto tempo soterrada pelas palavras "O Novo Normal", entoadas como uma cantilena para superar os desafios impostos pela praga.

O Brasil vive, na prática, seu primeiro feriado prolongado - um ensaio de alvorecer depois da "longa noite" que começou em março de 2020, e das angustiantes imagens de camas de hospital lotadas, de velórios a toque de caixa, de corredores e mais corredores de novas sepulturas.

Vivemos nosso primeiro feriado prolongado depois da pandemia com a promessa de retorno à normalidade proporcionada pela vacinação. E temos a oportunidade de não apenas descansar o corpo e mente: podemos ver claramente como será essa nova vida, esse "retorno ao normal" há tanto desejado sem as pessoas que amamos, sem aqueles que faziam a diferença em nossas vidas. E ao contemplar esta perda, independentemente de nossas crenças, aprender a lidar com o que perdemos.

Este não é apenas o primeiro feriado prolongado depois da pandemia: é o instante em que iremos vislumbrar o mundo sem as coisas que nos foram roubadas, e perceber de fato quem nos tomou o que nos era tão querido.

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