Cabelos brancos

Dos inúmeros defeitos de caráter que erroneamente são atribuídos aos brasileiros, a falta de memória é um dos mais proeminentes. No voto, nos rancores e nos amores, dizem que o brasileiro tem dificuldade em lembrar - e aprender - das coisas que passaram com eles.

O Dia da Consciência Negra, celebrado hoje, é mais do que uma data histórica do levante de um povo pelo direito de ser reconhecido humano, e destruído sob a bota do poder econômico e político - que nos séculos seguintes se converteu em poder econômico, cultural e social. É uma das inúmeras oportunidades que são oferecidas à nossa população em acertar suas contas com o passado e, finalmente, entrar na civilização.

Para além das medalhas, dos apelos pelo fim do racismo, das passeatas e dos especiais na televisão, o Dia da Consciência Negra vem para reivindicar um direito fundamental: o direito à existência em sua plenitude. Não apenas aceitar sua presença, mas levá-la em consideração quando se tratam de questões de interesse geral.

O Dia da Consciência Negra trata de não apenas tolerar a mulata passista ou o craque da bola, o prodígio do cavaquinho ou o alívio cômico nas novelas e seriados de televisão: é compreender que esta parte da nossa população, independentemente de viver em condomínios fechados ou em áreas livres, célebres e anônimos, são tão dignos de serem ouvidos, respeitados, amados; que são capazes de criar, de liderar, de inspirar e de serem homenageados por seus feitos, dignos de estátuas e batismo de pontes, estradas, escolas e hospitais, como qualquer outra pessoa. Como cantou Chico César: "respeitem meus cabelos, brancos".

O Alto Tietê, com seus quase 1,7 milhão de habitantes, vive hoje dias de celebração, de reflexão e de luta contra o racismo que ainda é uma sequela de séculos de desigualdade, desmandos e um torpe proselitismo conservador. Como um ponto de encontro de todas as culturas do mundo na cosmopolita São Paulo, temos um compromisso inadiável em fazer valer este respeito, nas coisas grandes e nas pequenas: nem tanto pelo medo da lei, mas pela necessidade fundamental da empatia como marco civilizatório.

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