Samba sem nota

Em 1919, ainda sem a criação das escolas de samba, o Rio de Janeiro fez um dos carnavais mais célebres vistos até hoje. Um ano antes, a gripe espanhola desembarcara no Brasil e acabou sendo responsável por 35 mil mortes só no país. Cadáveres eram empilhados pelas calçadas e carregados em caminhões de lixo. Mas a tragédia, ainda recente, não impediu que o Rio de Janeiro, logo após o encerramento da Primeira Guerra Mundial, fizesse uma das maiores festas já vistas, já com a pandemia enfraquecida. Na época, o governo foi contra a realização da festa. Em vão.

No século XIV, o continente europeu também realizou festas marcantes após a superação da peste negra, que pode ter reduzido a população mundial de 450 milhões de pessoas para 350 milhões. Já em 2021, porém, ainda não há condições para a realização do Carnaval. A pandemia do coronavírus ainda não tem data para ser controlada. Já são 236 mil mortes no país e mais de 2,3 milhões em todo o mundo. Embora os prejuízos causados pela Covid-19 sejam grandes para as escolas de samba, não há o que fazer

No Alto Tietê, Mogi das Cruzes é a cidade com maior número de agremiações. Com samba no pé, mas mal das pernas, principalmente nos últimos anos devido ao corte de gastos da Prefeitura, as dificuldades financeiras neste ano só aumentaram. Além do cancelamento sensato dos desfiles das escolas de samba, em cumprimento às medidas sanitárias necessárias para conter a Covid-19, nenhum evento presencial pode ser realizado para ajudar com a arrecadação monetária. Além disso, essa não é a primeira vez que o evento é cancelado. Em 2016 e 2017, a Prefeitura de Mogi enfrentava uma crise econômica, iniciada no país dois anos antes, e não pôde investir.

Apesar do momento difícil, esperamos respeito e entendimento da população e uma fiscalização firme contra os transgressores. O que resta, relembrando o célebre Carnaval do Rio de Janeiro de 1919, é o Bloco do Eu Sozinho, popularizado pelo jornalista Julio Silva que, naquele ano, desfilou pelas ruas apenas com a companhia de sua corneta, gesto que foi repetido por décadas. Desta vez, nada de samba. Nem de uma nota só.