À beira do precipício

Afonso Pola
Afonso Pola - FOTO: Daniel Carvalho/Mogi News

Nosso país se encontra a um passo do precipício. Além das consequências causadas pelas crises econômica, institucional e política, enfrentamos também os reveses provocados pelo avanço do coronavírus. Alta de preços, perda de renda pela ausência da recomposição salarial e pelo elevadíssimo nível de desemprego, somados à falta de políticas públicas consistentes para minimizar os efeitos negativos desse quadro mais sentidos por segmentos vulneráveis da população, alimentam a possibilidade de vivermos uma situação de convulsão social no futuro.

Para exemplificar a intensidade e rapidez da degradação de valores, vou recorrer a um fato de 1994. O chamado "escândalo da parabólica" envolvendo o embaixador Rubens Ricupero, então ministro da Fazenda de Itamar Franco. Ricupero se preparava para entrar no ar ao vivo no Jornal da Globo daquele dia quando, sem perceber que os microfones já estavam abertos sentenciou: "Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde." Isso culminou com a renúncia do ministro.

Menos de 30 anos depois, o que presenciamos em nosso país não guarda mais relação com o que vivemos antes. Temos uma pastora e deputada federal que responde pelo assassinato do marido e ela permanece atuando na Câmara dos Deputados.

Aécio Neves, quando ainda era senador, foi gravado em conversa com o Joesley Batista pedindo R$ 2 milhões para pagar despesas com a sua defesa na Lava-Jato. Depois que o empresário disse que ia arrumar o dinheiro, Aécio indica um primo para pegar o dinheiro e diz: "Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação". Aécio é deputado federal.

E temos também esse deputado Daniel Silveira que, de forma esquizofrênica, defende o AI5 e, ao mesmo tempo, defende a liberdade de expressão. Todos eleitos pelo voto popular.

Ao que tudo indica, em 2021 vamos continuar ladeira abaixo. Por que será que o governo está mais preocupado com decretos que facilitam ao acesso a armas do que com aquilo que deveria receber toda a atenção?

Afonso Pola é sociólogo e professor