Pródiga é a ação da mente

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

Solidão não é inanição ou falta de energia, é um tesouro de pródigas previsões a ser encarado pela via da Alma desperta. São muitos os vínculos com os quais e através dos quais o criador chega ao sonho: o nascer do sol, a floresta convidativa e ameaçadora, a arte e a solidão. O evocador acorde musical, a névoa no mar, nada perdem, por esperar!

Um poeta de renome aceita o destino de ser grande e gauche na vida, como quer Drumond. Como se em Itabira existisse, e alguém não fosse capaz, de subverter verbos e submeter a linguagem à dimensão utilitária que não sofresse do mal de ser vítima do cotidiano. Não importa quanta solidão esteja envolvida na guarda dessa linguagem. A página, ao adquirir a forma tradicional, totalmente cheia, readquire sua imponência sem ter de retornar à sua forma original. Como se eventual branco, restaurado, pudesse afetá-la de algum modo!

Se isso conforta: para todo aquele que se submete às palavras, o processo de esquecimento não existe. É preferível viver reconciliado com o destino de se sentir mal condenado ao seu próprio idioma, do que se submeter &agra ve; Comissão da Verdade e da Reconciliação, pelo Centrão, posta à visão pública, em mesas de jantares profanos!

Pela variante da solidão posterga-se a necessidade de ser um, entre tantos. Dançar, batucar para a consciência despertar. Praticar encontros, para que o espaço sobre, para arrancar poemas das entranhas e criar uma rima de pródigas façanhas. Posta diante do fogo da invenção para decidir qual canção se entrosa melhor no processo de revelar a Alma, vertente maior de toda a criação.

O ato de preencher uma folha em branco deixa cicatrizes. A dança febril entre palavras e idéias deixa seqüelas que nem sempre se refletem no rosto. Principalmente quando se está perto de outra pessoa, que além de não procurar, exime-se em nada entender, do que está prodigalizado.

Raul Rodrigues é engenheiro e
ex-professor universitário.