Política: com ou sem placebo?

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

Todos sabem que a fé move montanhas, de dinheiro no Brasil, mas não tem sido capaz de mover o charlatanismo da religião e da política. Não há fé que seja capaz de mover da Esplanada dos Ministérios a confusão semântica que ministros fazem entre o efeito placebo e o sentimento espiritual.

O efeito placebo não tem nada a ver com fé. Efeito placebo é o nome que se dá ao efeito terapêutico positivo verificado em pacientes que, durante um experimento científico para testar um medicamento, ingerem uma substância inócua pensando que estão ingerindo o remédio para valer. Esses pacientes não são movidos por fé. Eles não acreditam que Deus vai curá-los. Ao contrário, eles apenas acreditam no remédio que imaginam tomar e predispõem o organismo para a cura.

Ministros não sabem a diferença entre fé e placebo ou não querem que a gente saiba. Eles certamente sabem o que é política, na qual todos os conceitos flutuam conforme as circunstâncias. O que seria então uma política com placebo? Falta apenas entender o lugar do placebo na política. Pode ser que, muito além do placebo dos ministros, esteja em marcha a hipótese de ministérios-placebos. Exceção feita, talvez, à ortodoxia conservadora encastelada na área econômica, o ministério-placebo não teria conteúdo. Sob pensamento inócuo, seus projetos seriam inertes e seu programa ausente. Graças à crença nacional, e só a isso, produziria efeitos benéficos mesmo sem contar com nenhum princípio ativo comprovado.

Os ministérios-placebos não estão suspensos. Querem mover montanhas. Mas que montanha? Seria uma dessas montanhas, a Operação Lava Jato? O presidente já disse mais de uma vez que apoia a Lava Jato e que não vai permitir interferências governamentais nas investigações em curso. Ao mesmo tempo, existe aí um pessoal dando expediente na Esplanada cujos nomes estão bastante implicados nas denúncias. Esse pessoal tem uma fé inabalável.

Raul Rodrigues é engenheiro e

ex-professor universitário.