Pobreza não é miséria

A invasão de áreas proibidas para construção de moradias é uma problema antigo no Alto Tietê e que vem se intensificando neste ano. Trata-se de pessoas que passam por grandes dificuldades financeiras e, sem um teto para viver, se vêm sem opção e obrigadas a invadir terras que pertencem a empresas ou Áreas de Proteção Ambiental (APA).

A necessidade dos cidadãos é tamanha que constroem suas moradias em locais perigosíssimos, como próximas à rede elétrica ou áreas com risco iminente de alagamento e desmoronamento.

A defasagem por parte dos governos federal e estadual na demanda de programas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida e CDHU, compõe este cenário, no qual pessoas acabam optando em arriscar a própria vida e de seus familiares. Não se trata de uma escolha. Ninguém decide viver próximo a uma ribanceira ou às margens de rios - como ocorre em Mogi das Cruzes, com o rio Jundiaí -, se não for por falta de alternativa.

Outro problema antigo que engloba essa questão são aqueles que se aproveitam dessa situação - os chamados grileiros. São pessoas que anunciam e vendem terrenos em áreas proibidas para quem mais precisa de terra. Desesperadas, famílias compram o espaço e depois, quando ocorre a reintegração de posse, "pagam a conta" do ato ilegal. Há grupos organizados que atuam dessa forma - sugando o pouco dinheiro de quem vive em situação financeira precária.

Para minimizar essa problemática, a fiscalização precisa ser constante, embora seja difícil monitorar 100% a situação. A reclamação sempre cairá no colo do poder público, seja no despejo das famílias ou quando há acidentes, muitos deles fatais. E o papel das autoridades é mesmo o de vidraça. É preciso, no mínimo, planejamento e ação, não para acabar de vez com essa adversidade, mas para minimiza-la.

O infortúnio principal neste caso não é a pobreza. Desde a era antes de Cristo há ricos e pobres. Mas, quando tratamos de quem não tem onde morar, não estamos falando de pobreza. Estamos falando de miséria. E isso, um dia, se vislumbramos um mundo mais justo, tem que acabar.