De cidadão um estadista?

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

De saída, Platão: "O preço da passividade do cidadão é, pelo menos, a possibilidade de ser governado por maus governantes." Pior: passividade aliada à ignorância, tem-se o, nada apetitoso prato, que se saboreia hoje no país.

Governar consiste, afinal, um contrato, um pacto tácito: se o cidadão não se dá ao incômodo de votar, de discutir, de se informar, de lutar pelo que acha correto ou pelos seus interesses, como consequência, quem teria o poder perde ou não estabelece realmente a vinculação com ele, e, pasmem, deixa de fazer o que lhe parece bem, ou o que seja do seu interesse.

Com isso, de prima: quem nunca se "meteu em política" perde algo de decisivo em termos de reclamação. Políticos são pessoas como nós, e ao se querer que façam bem, deve-se ajudá-los, obrigando que a política siga o bom rumo desejado, obviamente pela nossa ação política, jamais por outro e qualquer meio.

A verdade é que a maioria peca pela omissão: A. Nunca participaram em nada de político, nem sequer nas reuniões do condomínio. B. Não votam, ou se votam fazem-no rotineiramente. C. Não pertencem a partidos, ou se pertencem, baixam a cabeça aos poderes instalados. D. A situação atual global, quer queiram ou não, obrigaria a um repensar abrangente das formas de ação política.

Muito se fala em crise, e a reboque dela, alterações no sistema político. Cremos que isto é fundamental. Ou tal ocorre, ou virá, mais dia menos dia, nova ditadura e partido único, sob qualquer bandeira, na pior solução, populista. O próprio presidente já ensaiou atiçar a chama antidemocrática, como ocorreu noutros tempos.

Importa pois pensar que qualidades teria um bom político, que se considera parte do Estado e não do governo, para que se consiga finalmente encontrar um escol democrático que, repartido entre vários partidos, salve o pluralismo e a democracia, já ameaçados pelo legítimo descontentamento, aproveitado pelos antidemocratas instalados na primeira esquina de nosso descuido.