Cultura! Para quê?

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

A mídia escrita não deixa por menos. A Frente Ampla Cultura que reúne mais de 400 entidades de cultura em São Paulo enviou uma carta ao governador criticando a atuação do secretário da Cultura. Como se já não soubéssemos que, em princípio, ninguém é ridículo sendo o que é. Quando se finge ser outra coisa é que o ridículo nos apanha. Mas deixa pra lá!

Então, onde a Cultura nasce e continua a nascer? Por que razões os homens construíram instrumentos sonoros, inventaram danças, preencheram páginas e páginas de folhas em branco com preciosa informação, colocaram colares ao redor de seus pescoços e flores nos cabelos, edificaram residências, revestiram-nas das cores as mais inusitadas, calcadas numa alegria que queriam incutir em suas almas e, para completar, no processo de reinventar a natureza, criaram quadros, para dar o toque final de beleza em tudo, e os depositaram nas paredes nuas. Todo esse processo de invenção foge à objetividade que marca o comportamento de certos governos.

A sobrevivência tem tudo a ver com ordem. Basta observar os animais. Nada fazem a esmo. A improvisação excluída de seu esquema de vida. Por milênios seu comportamento tem seguido os mesmos padrões. Quando, por uma razão qualquer, esta ordem inscrita nos seus organismos entra em colapso, o comportamento perde a unidade e direção. E a vida se esvai. Com os homens as diferenças individuais é que causam espécie. Como atuam dentro de padrões ditados pelo próprio imaginário, não existe linearidade na concepção e nem nos resultados.

E se os homens fossem totalmente objetivos, totalmente escravos dos fatos, francamente autênticos, poderiam ter inventado tais coisas? Onde estava o piano antes de ser inventado? Os edifícios onde eles se abrigam? O jardim marejado de estéticas flores? E as danças? Os quadros? Tudo isso como manifesto produto da imaginação, do poder do amor e a dignidade construtiva do imaginário. Nenhum conhecimento poderia jamais retirar todos esses produtos da natureza se a imaginação não ficasse grávida para que o Mundo da Cultura nascesse. Viu senhor secretário!