Haja vulgaridade!

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

A manchete fala por si só: "Presidente diz a Exército que não quer punição a Pazuello." Com isso, existe, como se diz, o tom e a forma, que não são, como se poderia crer, assuntos dotados de autonomia.

Assim, pode-se evocar a vulgaridade, junto à preocupação em combate-la. Ou então, a vulgaridade não é mais, como antes, a marca infame da plebe, da massa e das classes menos protegidas. Antes, uma linguagem considerada como de base popular, por exemplo, era dita linguagem vulgar. Mas esta noção ganha em ambiguidade, pois que ela pode se voltar contra seus inventores. Na verdade, um líder que despreza as pessoas que ele pretende governar trairia sua vulgaridade pessoal, já que este líder iria se mostrar, por sua vez, desprezível. É isso aí: face ao destempero de um prato nada palatável, que a tornaria um preconceito de casta, tentando identificar alguns personagens que parecem comportamentos e práticas vulgares que nivelam, sim, mas na pior.

Para tanto, se a vulgaridade é outra coisa possível, deixando para trás um silêncio consternado, não de recato, mas de tristeza, determinados procedimentos sórdidos empregados na comunicação, determinadas atitudes de indiferença assumidas na vida corrente são fatos consumados, e cuja vulgaridade explode ainda com mais força do que nos sentimos impotentes em reproduzi-la. Vulgaridade que se identifica com a encenação pelo fato de que, se um é um fracasso, mas curável, o outro é insidioso e profundamente enraizado. Pode-se, então, imaginar sem pena dos defensores do coração de ouro e dos monstros da vulgaridade em linguagem inadequada.

Segue-se que, a vulgaridade poderia estar associada a uma "enfermidade da alma", se bem que mesmo satíricos ferozes e cínicos profissionais, quando possuem talento, a repudiam e destroem. É isso: a despeito de ser uma categoria ou um estilo, à parte do todo, ela é dotada do compromisso de espírito e engloba a visão do mundo. Nenhuma alternativa de vulgaridade é fortuita: ela ameaça diretamente a dignidade e, portanto, em certo sentido, a liberdade.