Ora: a estupidez!

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

Pode ser que todos os nossos esforços relativos à reflexão foram, de início, destinados a nos fazer escapar da estupidez. Pode ser que o inverso de nosso amor pela sabedoria não seja senão a clara recusa à estupidez. Mas o que exatamente é a estupidez? Com o que aí está: apenas ignorância, falta de educação? Não, na linguagem corrente é chamada de "besta", que como aos animais, as bestas, lhes falta a inteligência. A definição é aceitável?

Por trás da sua aparente simplicidade, a definição de estupidez como falta de inteligência é repleta de pressupostos. Ela leva a pensar que a estupidez como a inteligência, seria inata, e, mais grave, insuperável. Insuperável porque, se a instrução deve desenvolver a inteligência, a verdade é que não resta senão o que se supõe como capacidade. Não se instrui pedras, e se podemos mudar pequenos homens isso é porque eles trazem dentro de si certa capacidade. Um ser desprovido de inteligência, uma verdadeira besta, seria ineducável, incapaz de ultrapassar sua própria condição. Há por detrás dessa tão simples definição de estupidez, um nativismo e elitismo sempre pronto a deslizar para o desumano.

E se em lugar de ser uma falta de inteligência, a estupidez fosse a ignorância de nossa própria ignorância? Não existe estupidez bem mais formidável do que a simples falta de instrução; uma estupidez que justamente consiste em crer que não falta nada; um seguro em branco uma certeza marcadamente psicológica que crê poder se estender a tudo o que ela tem, a menos do conteúdo? Já que quanto menos se sabe mais se crê saber!

Considero estupidez toda forma de complacência intelectual. Essa dependência pode ser suficiente para gostar muito ou pouco: não há senão uma estupidez passiva que escuta sem saber e repete sem compreender. Esse estado é marcado por uma ausência crônica da surpresa: a besta se torna forte por saber interpretar todo acontecimento e toda palavra a remete àquilo que ela estima e já conhecido graças à infalibilidade do sistema fechado de seus preconceitos. Para ela, conhecimento é acima de tudo fazer valer!