Viver como se deve

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

O politicamente correto é uma volta ao passado, quando se acreditava que o homem era essencialmente bom. Mas o homem é fundamentalmente mau. Quando ficar ofendido dá poder às pessoas; elas, na certa, vão se sentir ofendidas mais facilmente. Inclua-se aí o máximo figurante da República.

Sempre se acreditou que para alcançar aceitação social, tem-se de agir igual aos outros. Todos, então, se tornam parecidos e desejam as mesmas coisas. As singularidades de cada um desaparecem, chegando a um ponto em que não dá mais para saber o que realmente se deseja.

Por outro lado, o indivíduo sempre teve de lutar para não ser dominado pela tribo. Ao tentar se liberar, muitas vezes se sente só e, às vezes, amedrontado. Mas nenhum preço é alto demais a pagar pelo privilégio de ser dono de si mesmo.

Com isso, numa cultura em que sofrimento é virtude, não é de se estranhar a falta de ousadia em se viver de forma prazerosa. A felicidade e a alegria são vistas como alienação, ao contrário da angústia existencial, que é respeitada.

Assim, falar a verdade cobra um preço e jamais será seguro. Não falar é o risco de se tornar um servo, um ressentido, um escravo sem poder e auto-estima. Um preço muito alto! Por isso, sou contra o politicamente correto e acho que é preciso transgredir nas coisas que valem a pena. São nossas escolhas que mostram o que realmente somos, muito mais do que nossas habilidades. Com isso, hoje em dia o saci seria um afrodescendente portador de necessidades especiais? Putz!

As pessoas que consideramos "perfeitas" são em geral as que também se considera chatas. Os indivíduos com que nos deliciamos com mais frequência são aqueles com alguma tendência incontrolável, um hábito não tão maravilhoso, ou uma idiossincrasia peculiar. Assim, envelhecer é um processo extraordinário em que se nos tornamos a pessoa que sempre deveríamos ter sido. Sem que, com isso, eu sempre não soubesse atrelar meus demônios à minha carroça. Eles continuam me atormentando, mas eu os obrigo a me ser úteis. Só existe um sucesso: ser capaz de viver à própria maneira!