Cultura? Há de vingar!

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

Quando o poder é usado de maneira adequada, mobiliza pessoas em benefício delas mesmas. Assim, o uso do poder de modo adequado agrega pessoas em seu próprio benefício. Quando mobiliza pessoas, no próprio benefício delas, qualquer um, no mundo, quer ser seu agregado. Quando o poder emprega pessoas em seu próprio benefício, encontrará poucos para esse fim. E que desdobrados fins pode-se constatar, mundo afora, neste Brasil faceiro!

E se tudo isso tiver o suporte de sólida base cultural? Poderão os símbolos, entidades tão débeis e diáfanas, nascidas da imaginação, e desembocados no que se pode chamar de cultura, competir com a eficácia daquilo que é material e concreto?

Não é a dor que desintegra a personalidade, mas a dissolução dos esquemas de sentido. Esta tem sido a trágica conclusão das salas de tortura. Se pudermos concordar com a afirmação de que aqueles que habitam um mundo ordenado e carregado de sentido gozam de um senso de ordem interna, integração, unidade, direção e se sentem efetivamente mais fortes para viver, teremos então descoberto a efetividade e o poder dos símbolos e vislumbrado a maneira pela qual a imaginação tem contribuído para a sobrevivência dos homens. Todo mundo sabe lidar com detalhes, mas ninguém sabe como agir trabalhando as bases. Deixam-se de fora as raízes, enquanto se experimenta erguer, pasmem, os galhos.

Nessa condição, os que se acham muito por baixo, esmagados ao peso das circunstâncias, gastam suas parcas energias na reles luta por um pouco de pão. Evitar a morte pela fome já é um triunfo. Foi de uma classe social que se encontrava no meio que surgiu uma nova e subversiva atividade econômica, que corroeu as coisas e os símbolos de um mundo universal. Não estaria só na classe média a gênese de todo o processo cultural que se vive atualmente? Por que os governantes só acenam com medidas que tendem a afetar de modo drástico a considerada causa de todo processo cultural conseguido pela humanidade? Pano de fundo a ser tecido, com alguma pompa, em oportunidade futura.