Obediência com reflexão?

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

O papel da socialização na sociedade contemporânea, que se acentua a cada dia, centra-se na maioria das vezes no pré-escolar e que, ao longo de pelo menos 14 anos, assenta-se num sistema que não existe apenas para nos educar, mas exige que se saiba reconhecer, e obedecer, à autoridade e regras do mesmo. Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, não afirmou ao lado do presidente que: "Manda quem pode e obedece quem tem juízo?"

Mas, e antes que se presuma que este exercício de escrita consiste em um incitamento "gratuito" à revolta, convém explicar o que realmente significa o conceito de "desobediência inteligente". Para percebê-la é necessário que se compreenda, primeiro, a natureza da obediência. Invocar a declaração de Pazuello é um exemplo.

A verdade é que nosso sistema está mais concebido para incutir comportamentos de obediência, mesmo que estes incluam ordens de violação moral, ética ou legal, do que um sentido de responsabilização.

Desde o primeiro momento em que se senta numa sala de aula, somos ensinados que se tem de obedecer e que resistir a uma autoridade leva a consequências negativas. Esta realidade pode ser chamada de "metaprogramação não intencional", a qual tem origem no fato de, historicamente, as instituições educativas colocarem demasiada ênfase no cumprimento de regras, as quais acabam sendo interiorizadas e aceitas subconscientemente à medida que se vai vivendo.

O problema é que a obediência reflexiva, não questionada, pode resultar em consequências graves - em empresas e na política. Ao retornar ao escândalo que rebentou na CPI da Covid, envolvendo autoridades federais acusadas de atuar no levantamento de ofertas paralelas na aquisição de vacinas, não é difícil imaginar quantos terão sido aqueles que, obedecendo a ordens superiores, como ficou claro na mídia, não se insurgiram contra ordens vindas do topo e pactuaram com fraudes que podem ser avaliadas em bilhões de reais. E, infelizmente, este é só mais um caso a se juntar a tantos outros. Sem incluir as propinas endêmicas!