Nem precisa de tanques

Heródoto Barbeiro
Heródoto Barbeiro - FOTO: x

O presidente está acuado. Cada vez mais tem dificuldades de aprovar medidas que julga importantes no Congresso. Os debates são cada vez mais exaltados e ele é acusado de impedir o desenvolvimento da democracia. A base de sustentação se desgasta com projetos que não solucionam os problemas. O que resta à população é escolher candidatos da oposição, que anunciam diariamente que o presidente quer se perpetuar no poder e para isso precisa de apoio. A oposição denuncia que ele pode lançar mão das Forças Armadas e impor diretrizes que julga melhores para o pais. Em outras palavras, um lado acusa o outro de esticar a corda.

A crise econômica é uma herança que o governo recebeu. A população reclama da alta do custo de vida medida pela inflação. Mas o que mais incomoda é a alta do preço dos combustíveis. A Petrobras não tem condição de aumentar a oferta do produto. A explicação é a situação de tensão contínua no Oriente Médio. O petróleo se tornou uma arma poderosa, uma vez que a economia mundial se move tocada a diesel ou gasolina. O Brasil está entre os grandes consumidores com uma frota imensa de caminhão e o transporte de mercadorias em cima de pneu. A classe média tem acesso ao carro particular, às vezes mais de um por família, e não abre mão do transporte individual.

O presidente não respeita a constituição que jurou defender. Ernesto Geisel alega que o Brasil corre o risco de voltar a ser tomado de assalto pela esquerda, travestida em partido de oposição. As votações estão cada vez mais apertadas. Assim determina o fechamento do Congresso por duas semanas. Ressuscita o Ato Institucional n 5, inerte desde 1969. Ele divulga um conjunto de mudanças que a mídia já chama de Pacote de Abril. Dois itens incomodam mais para os que querem uma reabertura política. As mudanças na constituição podem ser feitas com apenas maioria simples e um terço do Senado passa a ser indicado pelas assembleias legislativas estaduais e não mais pelo voto popular. Com isso o governo espera manter o controle do Senado ainda que a mídia apelide esses políticos de senadores biônicos.