Realidade trágica

Afonso Pola
Afonso Pola - FOTO: Daniel Carvalho/Mogi News

Em seu livro - O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil publicado em 1995, Darcy Ribeiro escreveu o seguinte: "Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra"

Hoje, 26 anos depois, o que será que Darcy Ribeiro escreveria para caracterizar nosso povo? Como ele definiria aquilo que nos tornamos? A violência que nos acompanha faz muito tempo vem se intensificando e mudando seu perfil. A quantidade de crimes envolvendo os chamados "cidadãos de bem" impressiona muito.

Na última quarta-feira, uma estudante de 23 anos morreu após uma discussão de trânsito no Rio de Janeiro. Ela estava na garupa da moto de seu namorado quando a moto bateu no retrovisor de um carro quebrando-o. O motorista perseguiu a moto e bateu derrubando o casal. A moça morreu.

No mesmo dia, em Brasília, um advogado de 37 anos atropelou uma mulher de 40 anos após uma briga de trânsito. Segundo a polícia, os dois discutiram em uma rua na altura da QI 15 e, após a briga, o homem teria perseguido a vítima até a porta de casa. O suspeito foi preso e autuado em flagrante na 10ª DP por tentativa de homicídio.

Já na Bahia, uma faxineira pulou do 3º andar de um prédio, numa tentativa de fuga da situação de cárcere privado à qual era mantida por sua patroa que não aceitou seu pedido de demissão e não permitiu que ela saísse do apartamento tendo inclusive recolhido seu celular.

Estamos vivendo um processo no qual as pessoas estão expondo com muita naturalidade suas características mais vis. Provocar a morte de uma jovem por conta de um retrovisor é algo que merece punição exemplar. O mesmo vale para para o advogado de Brasília e a mulher da Bahia.

As pessoas estão se mostrando cada vez mais preconceituosas, homofóbicas e intolerantes. É tudo muito triste.

Afonso Pola é sociólogo e professor