Liberdades e coletivo, afins?

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

Apontar o óbvio e delatar absurdos tem sido a exaustiva tarefa do bom senso. A Filosofia, nessas horas, pode ajudar a iluminar os cantos escuros que permitem que o óbvio se esconda, o absurdo seja defendido e a barbárie relativizada. É certamente possível continuar a rotina com panos quentes, mas teimar pela sensatez é algo inquietante. Além disso, se a insistência no bom senso servir a uma única pessoa, já terá sido uma conquista.

No cenário político atual, eventos políticos e mídias sociais nos colocam diante de uma disputa tribal, na qual populismo e nacionalismo inflamam paixões. Há esquadrões de pessoas que acreditam estar lutando para o bem da humanidade. Não se trata mais de política, de contrastar opiniões, mas sim da luz contra a escuridão. Na ânsia de vencer a cruzada "espiritual", poucas, simples e indispensáveis formas de investigação e análise são colocadas de lado.

É compreensível que seja assim! Afinal, ponderar e revisar nossas crenças diariamente a cada fato novo que surge requer uma dose de ceticismo, um desdém pela esperança e uma individualidade robusta. É muito mais fácil repetir algum canto coletivo e slogans que ofereçam conclusões logo pela manhã. É arrogante afirmar que os filósofos têm o dever intelectual de mudar o mundo, na verdade, o flerte entre a filosofia e a política às vezes pode levar a resultados patológicos. Só pensadores lúcidos conseguem iluminar cantos escuros por meio da análise das ideias políticas. Seja por artigos, crônicas divulgadas pela mídia, descem da torre de marfim e tornam acessíveis ao público as questões mais espinhosas da Filosofia. Tudo, sem perda de profundidade e de comprometimento. Talvez esses pensamentos nos ajudem a entender como foi possível chegar até aqui: como a individualidade pode se dissolver em tribos e paradoxalmente ainda reivindicar a liberdade para todos? Como se pode explicar agressões e discriminações relativizadas em nome de um "bem" maior?

Raul Rodrigues é engenheiro e ex-professor universitário