Sinais da degradação

Afonso Pola
Afonso Pola - FOTO: Daniel Carvalho/Mogi News

Nesses tempos estranhos, quando uma legião de incautos se informa através de fake news e busca desqualificar os meios de comunicação, ainda assim são os jornalistas e a imprensa em geral que nos trazem sinais do que vem acontecendo. A imprensa nos informa que, segundo dados do IBGE, dos 89 milhões de brasileiros ocupados, quase 37 milhões trabalham na informalidade.

Inflação e juros estão subindo no mesmo elevador e ele está subindo rápido. Isso somado ao desemprego e a queda da renda média da população empresta ao país um quadro bastante sombrio. Os sinais da degradação são claros.

Após alta no preço da carne vermelha (30,7% em 12 meses), o Brasil tem menor consumo desse produto em 26 anos. Esses dados nos ajudam a compreender a mudança do comportamento da população.

Neste ano, o Brasil bateu o recorde de extrema pobreza com 14,5 milhões de famílias na miséria. Com muita fome e pouco ou nenhum dinheiro, famílias passaram a disputar ossos descartados de açougues e supermercados, ao mesmo tempo em que as embalagens com pés de galinha ganharam espaço. Veio de Santa Catarina a vergonhosa placa dizendo: "Osso é vendido, e não dado", mostrando que alguns não pensam duas vezes diante da possibilidade de lucrar com a miséria.

Já em Belém do Pará, um supermercado estaria oferecendo "carcaça de peixe" como opção de proteína barata. Uma bandeja com 500 gramas estava sendo vendida por R$ 2,01.

A inoperância do governo diante dessa verdadeira tragédia social soa como incompreensível. Não é possível a omissão diante de uma situação que penaliza tantas famílias.

Homens, mulheres e crianças que perderam a condição de continuar morando onde moravam. Homens, mulheres, idosos e crianças que passam o dia revirando lixo para tentar garantir suas subsistências. Essa é uma das mais duras tragédias que pode atingir uma sociedade. Pés de galinha, ossos e carcaças de peixes são sinais de que o nosso país vem se degradando a passos largos. Não podemos ficar indiferentes a isso.

Afonso Pola é sociólogo e professor