Ah! Esse passadismo confesso!

Raul Rodrigues
Raul Rodrigues - FOTO: Daniel Carvalho

Não sou daqueles que desejam entrar em uma máquina do tempo e viver em outra época, mas gostaria que as ideias de futuro que algumas pessoas de certas épocas alimentaram estivesse mais presente na realidade hoje vivida. O que sinto é que fomos deixando coisas importantes pelo caminho e passamos a acreditar que nosso destino, aquele ponto no qual tudo será lindo, maravilhoso, pode ser realizado por valores duvidosos, por serem fátuos.

Não se trata de fazer mal juízo da modernidade, de não buscar compreender os novos tempos, os interesses que hoje movem os jovens e uns tantos adultos. Trata-se de pensar o quanto estamos perdendo o substrato comum que justificou, desde sempre: viver-se em coletividade! Tornamo-nos um amontoado de indivíduos sobrevivendo em um espaço hobbesiano no qual, diariamente, quem for mais astuto ou mais feroz consegue trazer alimento para casa. Quanto ao espaço público, de ágora virou arena e o Outro tornou-se o cara com a arma apontada pro seu nariz, o leão feroz e faminto que não é mau, mas que precisa viver e você é a única chance dele.

Tornamo-nos átomos sem direção ou finalidade, reduzidos à nossa natureza, sem nenhum polimento ou acessório. E ainda acreditam, muitos ao nosso redor, que há uma ideia de sucesso nesse modelo. A única forma de "se dar bem"!

Os gregos diriam: é um modelo de vida idiota, no qual se vive voltado não para o usufruto da nossa possibilidade criativa, mas para a repetição do ritual do consumo do tempo e da energia vital, até que se sofra uma doença qualquer, ou uma violência vinda do ódio que essa mesma situação fomenta, e tudo termina. Sem obra, sem uma linha indicando um caminho para ser retomado por outro, que chega ao mundo e que poderia ir fazendo desse mundo, na tessitura de lento e delicado trabalho coletivo, um lugar melhor.

Para os que me consideram sonhador, não sou daqueles que culpam os outros e se isentam das responsabilidades. Em minha defesa, percebo até onde vai essa roda viva suicida do animal laborans.