Acidente?

Afonso Pola
Afonso Pola - FOTO: Daniel Carvalho/Mogi News

O 8 de janeiro vai ficar marcado pela catástrofe em Capitólio (MG) quando um paredão desabou sobre embarcações, tendo como saldo dez mortes.

Tratado pela mídia, e pelas autoridades mais diretamente envolvidas como um "acidente", não acho o termo suficiente para explicar tal evento. Por mais que ainda seja necessária uma análise sobre suas causas, especialistas sugerem que as chuvas que atingem a região há semanas e a formação de uma "cabeça d'água" devem ter sido determinantes.

O jornalista e escritor, Álvaro Nascimento, da rede Jornalistas Livres, ao comentar o ocorrido, relatou uma experiência vivida por ele na cidade de Cassis, França, onde pretendia fazer um passeio de barco para visitar os calanques (espécies de cânions). Os passeios foram suspensos em função da meteorologia indicar a possibilidade de ventos com intensidade.

Nada parecido com o que vemos aqui. Via de regra, as autoridades se omitem e os responsáveis pela promoção desse tipo de passeio não hesitam em desafiar a sorte de olho no lucro. E isso é um resultado direto das inúmeras catástrofes já ocorridas.

Em 31 de dezembro de 1988, o Bateau Mouche IV naufragou na Baía de Guanabara, (RJ), matando 55 pessoas. O barco estava com excesso de passageiros e o casco apresentava furos. Depois de 33 anos, o que temos é uma condenação a quatro anos de detenção em regime semiaberto para os sócios, sendo que eles fugiram do país.

Já em 27 de janeiro de 2013, o incêndio na boate Kiss matou 242 pessoas e feriu 680. Ocorrida em Santa Maria (RS), tal tragédia foi provocada pela imprudência e pelas más condições de segurança. O julgamento foi finalizado no final de 2021. Os sócios foram condenados e tiveram a prisão decretada pelo juiz, mas uma liminar concedida pela 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul suspendeu a medida e a decisão final será tomada pelos desembargadores do TJ-RS.

Passamos ainda pelos acontecimentos trágicos de Mariana e Brumadinho, casos esses ainda distante de uma solução. Nem um jornal inteiro seria suficiente para mencionarmos todas as tragédias que têm seus responsáveis cobertos pelo manto da impunidade.